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David Bowie e sua trajetória terráquea

De onde O Homem que Caiu na Terra surgiu e alguns dos seus impactos por aqui

Por Carla Braga - 13 Jan 2016 às 16:43h

“O que tenho é uma curiosidade malévola. É ela que guia a minha necessidade de compor e é, provavelmente, o que me leva a olhar para as coisas de uma forma um pouco enviesada. Tenho realmente a tendência para assumir uma perspectiva diferente da maioria das pessoas”. Essa pequena, mas pontual autoavaliação feita por David Bowie há alguns anos para o New York Daily News nos ilumina um pouco sobre a sua genialidade singular. Tão singular, que, nesta segunda (10), todos os seus fãs ou até mesmo as pessoas que conheciam o seu trabalho apenas superficialmente se sentiram órfãos com a notícia de sua morte.

 

Uma partida prematura, aos 69 anos, causada por (especula-se) um câncer no fígado, mas não vou focar nisso, já que não há lógica em associar algo tão corrosivo à imagem de um artista tão talentoso, que aceitou o seu destino de forma especular e lutou, até o minuto final, para entregar aos seus fãs e ao mundo os seus últimos projetos. Apenas pessoas com constituições muito específicas de personalidade continuam somando para o mundo na iminência de sua morte, e, com Blackstar, está mais do que claro que Bowie é um desses seres iluminados. 

 

 

Mas quem foi David Robert Jones?

Nascido em 8 de janeiro de 1947 em Brixton, na parte sul de Londres, David Robert Jones foi uma criança excepcionalmente sincera, desafiadora e talentosa. Aos poucos, aprendeu vários instrumentos – como ukelele, um tipo de baixo usado na música folk e saxofone – e estudou, no ensino médio, artes, música e design. 1962 foi o ano em que Bowie (ainda Jones) se envolveu em uma briga com o amigo George Underwood, que o socou no olho por causa de uma garota. Bowie, então, passou quatro meses internado. O resultado? A sua visão foi prejudicada e sua pupila esquerda permanentemente dilatada. Ou seja, a história que o cantor tem heterocromia não passa de um mito!

 

 

Ainda em 62, aos 15 anos, Bowie formou a sua primeira banda, a The Konrads, e Underwood era um dos integrantes! Nos cinco anos seguintes, Bowie largou a escola, trocou de nome (para não ser confundido com Davy Jones) e de várias bandas e lançou o seu primeiro álbum solo; e foi aí que tudo começou.

 

O impacto de David Bowie no mundo

Bowie sempre foi uma estrutura em constante metamorfose e, como cresceu na época do surgimento do rock’n’roll, foi influenciado por Elvis Presley e John Coltrane. Tentou, a princípio, seguir essa linha, mas, em pouco tempo, criou o seu primeiro personagem e ganhou uma identidade só sua, que ainda viria a ser múltipla. Major Tom, um astronauta que se perde no espaço, foi apresentado em Space Oddity – álbum e música de 1969.  

 

 

 

Em seguida, chegou Ziggy Stardust, alienígena ruivo, andrógino e bissexual caído na Terra, que transformou a década de 1970 com o lançamento do álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars, de 72. Ziggy tentava passar uma mensagem de esperança para os jovens da Terra e, quando apresentou o hit Starman com sua banda no programa britânico Top of the Pops e abraçou o guitarrista Mick Ronson, causou uma controversa estrondosa – o gesto foi visto como extremamente feminino e, logo depois, foi muito importante para um país prestes a mudar sua atitude com a sexualidade de seus habitantes. Olha só a apresentação:

 

 

Desde então, inúmeros personagens foram originados em sua mente e apresentados ao mundo, seja Major Tom, Ziggy Stardust, Alladin Sane, Halloween Jack, Thin White Duke ou algum outro. Por mais incrível que pareça, Bowie era bem tímido, e criar uma nova identidade o ajudava a subir no palco!

 

Mas Bowie, que possuía uma mentalidade sempre voltada para o futuro e suas respectivas mudanças, não impactou a humanidade apenas com sua música. Ele sempre lutou por direitos iguais. Ponto. Seja evidenciando a ausência de artistas negros no começo da história da MTV:

 

Seja revelando o racismo velado ainda existente na Austrália em relação a sua população aborígene com o clipe de Let’s Dance:

 

 

Seja se declarando gay e, em seguida, bissexual em uma época em que ninguém, ainda mais uma figura pública, tinha o direito de fazer isso sem trazer à tona consequências terríveis, e tendo que lidar com perguntas um pouco sem sentido como esta:

 

 

Seja participando da queda do Muro de Berlim com sua música Heroes e com sua icônica apresentação no famoso muro:

 

 

Bowie participou de várias mudanças sócio-políticas cruciais para a nossa realidade atual, sem falar no seu legado musical e fílmico. Ao falar, usar e ser o que vinha a sua cabeça, o músico incentivou os weirdos e excluídos a abraçarem as suas próprias identidades e estilos. O seu legado continuará a inspirar, sem dúvidas, por muitos e muitos anos. Como anunciou em Lazarus, o seu último vídeo clipe: “Olhe aqui, eu estou no céu. Tenho cicatrizes que não podem ser vistas. Eu tenho drama, não posso ser roubado, todo mundo me conhece agora. Desta forma ou de outra, você sabe, eu estarei livre como aquele blurbird [ave], agora, isso não é exatamente como eu?”. Descanse em paz, Bowie, e até em breve em outro planeta, plano ou o que seja!

 

 

... I love you so!