X

A Bruxa

Suspense conta uma excelente história de terror

Por Rafael Sanzio - 12 Mar 2016 às 12:27h

As histórias sobre bruxas que se destacaram ao longo da vida hollywoodiana marcaram essas criaturas místicas seja com versões infantilizadas como em Abracadabra (1993), romanceadas em As Bruxas de Salém (1996) ou computadorizadas em O Último Caçador de Bruxas (2015). Houve uma modernização delas na franquia Atividade Paranormal, mas fazia tempo que não víamos uma retratação “fiel” ao que poderia ser uma bruxa de verdade na época em que suas lendas foram mais fortes. A Bruxa, de Robert Eggers, entrega isso.

 

Baseada em relatos e depoimentos escritos no século 16 nos Estados Unidos, a trama acompanha uma família que foi expulsa em 1630 da comunidade na Nova Inglaterra e parte para construir uma vida fora da cidade. Sem a proteção dos muros que os cercavam, a família fica à mercê da região, mas os perigos que eles irão enfrentar não são nada naturais.

 

O primeiro trabalho que deve ser elogiado nessa produção, antes de falarmos sobre o roteiro, é a direção de Robert Eggers e a música de Mark Roven. Eggers é extremamente feliz na escolha dos ângulos e do que mostrar à medida que o sofrimento e a percepção da solidão no qual a família se apresenta ficam cada vez mais tangíveis. A trilha de Roven assemelha-se ao trabalho de Joseph Bishara em Sobrenatural, com um inquietante ruído de cordas e coros que entoam e ecoam o que já sabemos: que a floresta é amaldiçoada e que aquela família afunda no próprio sofrimento e mentiras.

 

O roteiro de Eggers, apesar de ser baseado em relatos da época que podem muito bem ser fantasiosos pelo misticismo, crendice e temor à Deus e o diabo, é bem aplicado pelas verdades conhecidas naquela mesma época. É interessante perceber como a trama nada mais é que uma versão rústica dos filmes de acontecimentos sobrenaturais de hoje em dia, com a família atormentada, uma protagonista feminina que parece ser a mais afetada entre todos, o clichê da necessidade de ficar no local e da calmaria depois da tempestade. Tudo está lá, de uma certa forma, contudo, esses elementos são bem administrados por Eggers.

 

 

A nítida impressão que temos do filme não é de uma enrolação para um fim revelador e sim de um drama que se desenvolve e constrói a desconstrução de uma visão que tínhamos da família religiosa que nos foi apresentada no início do filme. É perspicaz a forma como é conduzida a discussão sobre a fé e a corrupção dos filhos de Deus, já que nessas obras de terror geralmente o mal pode tudo e faz tudo, contudo aqui fica bem claro que há escolhas a serem feitas e há a influência dos dois lados – isso fica bem claro na cena com o filho Caleb (Harvey Scrimshaw). Além disso o roteiro é ágil mesmo com uma execução lenta das ações que acontecem no filme e o termo “lento” não é negativo, já que é muito bem-vindo o desenvolvimento da angústia de cada personagem. A agilidade mencionada é sobre a introdução do elemento sobrenatural, que é apresentado de forma satisfatória logo de início, e cada nova cena entrega novas informações enquanto fecha nossa percepção sobre cada membro da família.

 

Focado apenas na família, o elenco do filme está ótimo. Os atores mirins estão bem, destacando-se evidentemente Anya Taylor Joy como Thomasin e Harvey Scrimshaw por ter conseguido não quebrar o personagem em algumas cenas difíceis que o garoto teve que fazer. Ralph Ineson e Kate Dickie (Game of Thrones) também fazem um bom trabalho. A bruxa em si não tem o que falar, já que a personagem e o que achamos dela é bem mais através do trabalho do diretor e de como ele constrói os momentos que testemunhamos a criatura, do que um show de falas da mesma.

 

A Bruxa se destaca por demonstrar uma personagem do folclore bem perto da época que ganhou força e retratar essa exposição de uma maneira “real” de como seria a participação dessas criaturas na sociedade e de como elas agiam. Aliado a uma direção e trilha sonora impactante, assistir ao filme resulta em uma jornada de nascimento inesperada e de uma boa discussão sobre fé e corrupção de nossas almas.

 

8.8

Ótimo

Prós
  • A trilha sonora é perturbadora e ajuda bastante na construção do clima
  • A discussão sobre a fé e a corrupção da alma não pende necessariamente para um lado
  • O roteiro é ágil ao mesmo tempo em que dá o tempo necessário para o desenvolvimento dos personagens
  • É aterrorizante a forma como foi retratada as bruxas no filme e condiz com os temores da época
Contras
  • É reconhecível a estrutura do gênero no qual esse filme representa, apesar da pegada diferente
Antes de Watchmen: Espectral
Antes de Watchmen: Espectral
Antes de Watchmen: Espectral
Críticas