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Demolidor – 2ª Temporada

Jessica Jones libera a violência para o novo ano da série

Por Rafael Sanzio - 21 Mar 2016 às 14:39h

Um ano depois a Netflix entrega uma nova temporada da série Demolidor, logo após Jessica Jones ter caído no gosto do público. Em acréscimo ao tema sério da história do herói da Marvel Comics, o novo ano trás mais violência – seja porque ninguém reclamou de Jessica Jones ou porque era o caminho que estava seguindo com a presença do Justiceiro (Jon Bernthal) na trama. Nitidamente a série manteve sua qualidade, porém, também é nítido o problema que o programa tem com seus diretores.

 

Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) está na cadeia. A Cozinha do Inferno está em paz, não é? Não! Com a saída do Rei do Crime outras organizações ressurgem das sombras para tomar o lugar do vilão. Matt Murdock (Charlie Cox) percebe que a luta como Demolidor nunca irá acabar e sua vida dupla começa a atrapalhar sua vida pessoal e profissional. Com a chegada de um novo e violento vigilante, o herói das ruas de Nova York questionará seus próprios métodos de deter o mal que domina a cidade.

 

Uma das minhas preocupações pessoais quanto a séries de heróis é o perigo delas se tornarem uma versão mais caprichada de Power Rangers, como acontece atualmente com a série Arrow. Ou seja, uma história básica, vilão da semana e sequência de cenas de luta. Esse é um perigo real que Demolidor corre com sua história – sempre querer um motivo e criar capangas para o herói socar em algum momento do episódio. Por isso é extremamente valioso o roteiro entregar tramas e subtramas plausíveis com o universo que a série está inserida, além de trazer uma carga dramática para boas atuações e dilemas realmente interessantes, para que no final das contas a pancadaria seja algo bem secundária e utilizada com um bom motivo. E ainda bem, isso continua acontecendo nesse novo ano.

 

 

Sai a corrupção e impotência, entra a violência e o quão efetiva é a justiça dos heróis. Mais uma vez a trama da temporada é bem dividida em histórias paralelas e centrais. Com cada personagem tendo seu tempo para o desenvolvimento de sua personalidade e com questões morais bem aplicadas. Karen Page (Deborah Ann Woll) segue com sua transição natural da criação da personagem e com o passar dos episódios assume o posto que condiga com sua personalidade – fora a incrível habilidade de participar de eventos traumáticos e dramáticos. O relacionamento entre Foggy Nelson (Elden Henson) e Matt entra em outro nível e é interessante ver o bem humorado personagem criar camadas mais sérias. Os outros dois elementos inseridos na trama, Justiceiro e Elektra (Elodie Yung), são apresentados de forma satisfatória. No caso em particular do Justiceiro, vale salientar que é perceptível que se trata da origem do personagem e que certas atitudes, que podem não condizer com o código moral dele nos quadrinhos, podem ser relevadas por se tratar do início de carreira dele.

 

A história também ganha pontos por não abandonar o que foi mostrado na primeira temporada, resgatando referências e personagens que marcaram o primeiro ano da série – mostrar o que o Wilson Fisk está fazendo foi muito gratificante, e a presença em determinado momento da Madame Gao (Wai Ching Ho) é um indicativo que a série Punho de Ferro deve tê-la em sua trama. Por falar em outras séries, é bem provável que os acontecimentos da segunda temporada de Demolidor ocorram após os acontecimentos de Jessica Jones.

 

Não há tantas referências ao universo cinematográfico da Marvel Studios, mas, mais uma vez, há semelhanças às aventuras das séries da DC Comics, que por sinal, novamente Arrow. Essa trama toda sobre a Mão parece muito com a Liga das Sombras de Ra’s Al Ghul e a busca por um novo líder – a diferença é que aqui tem mais sangue.

 

E por falar em sangue, devo mencionar a direção da série, elemento que mais pecou na produção. Não é à toa que peço por lutas com mais sentido, para não exagerar na quantidade delas, porque os coreógrafos dos combates estão muito ruins. Há vários golpes que não encaixam perfeitamente e chega um momento que socos e pontapés perdem a graça, fora a terrível noção que estamos vendo dublês em ação – por favor, Netflix, compre perucas melhores para eles. Além disso, há erros grotescos de continuidade, e o que mais se destacou foi um que não poderia ter ocorrido pela carga dramática da cena. No terceiro episódio, Para servir e proteger, Demolidor está acorrentado em um determinado momento e tem na sua mão uma arma presa com fita adesiva, contudo, em um momento do diálogo, o diretor ou a edição se utiliza de uma cena já gravada – só que não perceberam que a cena em questão a mão do herói não tinha nem a arma e nem a fita!

 

 

A violência é bem vinda por transmitir um senso de realidade e, para falar a verdade, entregar soluções mais coerentes para a trama – dificilmente alguns inimigos iriam parar de fazer maldade só porque levaram uma surra. Fora que, se você quer um Justiceiro em sua história, é preciso fazer jus ao personagem.

 

O elenco continua ótimo – Charlie Cox está muito bem em ambos os papéis, maneirou um pouco mais na voz de Batman quando está na pele do Demolidor, contudo, apesar de mais puxado para a realidade, ainda é esquisito o jeito como ele fica bem cansado depois de algumas cenas de ação (Stick deveria ter ensinado alguns exercícios de respiração para o rapaz). Como previmos no final da primeira temporada, Deborah Ann Woll teve mais espaço para desenvolver o emocional de sua personagem, tendo a oportunidade de embarcar em vários conflitos morais e dramáticos – por sinal, um exagero por parte do roteiro, ou um motivo para ela começar a ir em direção ao destino de sua personagem nos quadrinhos. Como dito anteriormente, Elden Henson teve a oportunidade de trabalhar um lado mais sério do personagem, sem deixar de lado o bom humor – e com uma escancarada dica que o veremos em outras séries originais da Netflix e Marvel Entertainment. Quem viu o trabalho de Elodie Yung em Deuses do Egito sabe que ela está excelente em Demolidor, uma Elektra um pouco jovial demais, mas como Justiceiro há a desculpa que também se trata de uma história de origem. Jon Bernthal incorpora bem Frank Castle, sua lista de personagens e sua própria personalidade ajudaram nisso, mas ele faz um bom trabalho como o Justiceiro (ainda prefiro Ray Stevenson).

 

A segunda temporada de Demolidor faz o que torcíamos que fizesse: manter o nível da primeira temporada. Feito isso, é necessário um amadurecimento por parte da equipe técnica da Netflix, para não ocorrer falhas e erros técnicos gritantes como ocorreram nesse novo ano. Além disso, não basta ter uma temática séria e ousada se no final das contas virar um Arrow, dá para perceber a estrutura e vamos ficar na torcida para que o roteiro se destaque sobre a pancadaria. 

 

8.8

Ótimo

Prós
  • A violência é bem vinda nessa nova temporada para fazer jus ao Justiceiro e dar um real medo acerca dos vilões e aliados mortais
  • O roteiro entrega uma ótima história que se sobressai a pancadaria generalizada
  • Os personagens principais possuem bastante tempo para desenvolver suas personalidades e próprios dilemas fora da trama principal
Contras
  • O episódio final é semelhante ao da temporada anterior, com um desfecho anticlímax
  • As coreografias de combate estão cada vez mais piores, com golpes que não acertam e dublês com perucas toscas
  • Os diretores nessa temporada erraram demais, tanto nos erros de continuidade como na direção de algumas cenas
  • Algumas atitudes do Justiceiro não combinam com o personagem, mas pode se dizer que é uma história de origem
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