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O Conto dos Contos

Filme adapta fábulas clássicas de forma grotesca e graciosa ao mesmo tempo

Por Carla Braga - 16 Mai 2016 às 12:56h

O Conto dos Contos (Il racconto dei racconti), filme ítalo-francês-britânico e o primeiro com roteiro em inglês do cineasta italiano Matteo Garrone, mais conhecido por Gomorra (2008), definitivamente, não é um longa que passa despercebido após conferido. A produção, que tem nomes de peso em seu elenco, como Salma Hayek e Vincent Cassel, conecta três contos paralelos, mas com temáticas análogas em suas entrelinhas, de forma graciosa, mas grotesca e de forma sensual, mas mórbida. Se você curte histórias de fantasia e de horror, este é o seu filme.

 

Garrone trabalhou com outros três roteiristas, Edoardo Albinati, Ugo Chiti e Massimo Gaudioso, para adaptar Lo cunto de li cunti (conhecida como Pentamerão em português), publicação voltada para o público infantil e a mais conhecida do escritor italiano Giambattista Basile, que reúne fábulas recolhidas do povo e de tradições locais durante viagens do autor nos séculos XVI e XVII. Mas, apesar do livro ser dirigido para crianças, o tom de O Conto dos Contos é para adultos. Pelo menos, para os padrões atuais.

 

 

É perceptível que o formato e certos elementos das histórias possuem fatores conhecidos de fábulas infantis, como irmãs idosas que rejuvenescem, um rei que realiza um desafio para achar o pretende da sua filha e sacrifícios de sangue, mas o visual e desfecho das tramas de O Conto dos Contos são para adultos e, apesar de familiares, envolventes por não pouparem os detalhes mais sórdidos, a exemplo de um estupro envolvendo um ogro. No todo, o ótimo roteiro do longa oscila entre três reinos vizinhos, cada um liderado por um monarca egoísta, que não mede forças para conseguir o seu objeto de fixação, e todas acabam, de certa forma, em um lugar comum, ou seja, em uma moral da história familiar.

 

Mas O Conto dos Contos não se destaca apenas pelos seus três arcos narrativos. Talvez a melhor parte do filme seja o seu humor negro, de mau gosto até. Alguns podem achar que o segredo para isso reside no roteiro, mas não. A chave para atingir o excelente tom macabro e cômico do longa são as atuações solenes e o tom sério com que tudo é abordado. Parece que todos estão sempre posando para uma pintura (algo que acontece na trama inclusive) e, ao mesmo tempo, atuando em algum sketch de Monty Phyton. Uma excelente combinação, convenhamos.

 

 

O visual do longa é outra qualidade forte, apesar de pecar em alguns efeitos especiais. De qualquer forma, os figurinos são impecáveis, e, se comparados com as pinturas que aparecem com frequência nos planos, não deixam a desejar. A direção de arte é, em sua maioria, minimalista e utiliza-se, muitas vezes, das pinturas já mencionadas para transmitir uma verossimilhança. Quanto às criaturas das fábulas, elas também são um ponto positivo – algo que pode ser discordado facilmente. Mas, se analisadas lado a lado ao que O Conto dos Contos se propõe ser, as criaturas são sim interessantes. Monstros em computação gráfica e realista não fariam sentido com o restante do visual do longa.

 

Muitas vezes, as adaptações de fábulas clássicas mudam, completamente, o tom da obra que adaptam, mirando mais no visual (e audiência) da coisa. Enquanto outras visam extrair a essência das histórias em que se inspiram, e O Conto dos Contos descansa, sem dúvidas, na segunda categoria de adaptação. Com um elenco complexo e diversificado, repleto de sotaques diferentes, vide a mexicana Hayek casada com o norte-americano John C. Reilly em uma das fábulas, o filme de Garrone não se prende à nacionalidade dos seus personagens, por exemplo (talvez um reflexo das viagens de Giambattista?), mas se prende ao essencial: as histórias em si. O Conto dos Contos é uma obra-prima do bizarro e merece ser conferido enquanto estiver em cartaz por aqui. 

 

8.6

Ótimo

Prós
  • A trama aproxima os contos de elementos crus da realidade, como sexo, sangue e sujeira
  • Atuações etéreas e sombrias, mas engraças quando necessário
  • O visual macabro e sombrio apenas ratifica o tom do roteiro
  • Histórias isoladas muito interessantes, que se articulam com frequência
Contras
  • Os fãs que preferem fantasias mais leves não irão se adaptar bem ao tom desta produção
  • Se é um filme dirigido por um italiano a partir de um texto em italiano, por que roteirizá-lo em inglês?
  • Os efeitos especiais são mal efeitos em alguns momentos
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