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X-Men: Apocalipse 3D

Bryan Singer volta a essência simplista do primeiro filme da franquia

Por Rafael Sanzio - 20 Mai 2016 às 10:56h

Com o sexto filme da bem sucedida franquia X-Men da Fox chegando aos cinemas, X-Men: Apocalipse, é interessante analisar o quanto esse projeto revolucionou o gênero de super-heróis em Hollywood. Um dos principais responsáveis por esse sucesso é Bryan Singer, tanto que após dois filmes, o estúdio trouxe o filho pródigo de volta à franquia para dar seu toque de Midas. O que Singer consegue fazer é ter conhecimento necessário dos quadrinhos para poder agradar aos fãs dos quadrinhos e a pegada certa para criar essa aventura de ficção científica para agradar ao público casual do gênero que nem tenta entender a cronologia criada pela Fox para os mutantes.

 

A história escrita por Singer, Simon Kinberg, Michael Dougherty e Dan Harris, com roteiro de Kinberg, resolve levar os X-Men para os anos 80 – mas não através de viagem no tempo, chega disso. Nessa época acompanhamos o crescimento do sonho do Professor Xavier (James McAvoy), que conseguiu recuperar o tempo perdido e ensina jovens mutantes a controlar os seus poderes em um mundo que começa a aprender a tolerá-los. Contudo, uma nova ameaça surge à luz do dia – literalmente – e pode pôr em risco tudo que foi construído – literalmente também.

 

A primeira trilogia seguiu um caminho linear, com a apresentação do grupo de mutantes e contra um vilão megalomaníaco. O segundo filme mergulhou um pouco mais na questão mutantes na sociedade e apresentou uma direção mais madura e desenvolvimento da trama bem menos previsível. Já o terceiro filme foi um showdown de mortes e foco na ação. Com a nova trilogia veio algo diferente, ao menos um novo ângulo a ser explorado, com os velhos mutantes agora jovens na década de 70, explorando o relacionamento entre Charles Xavier e Erik Lehnsherr (Michael Fassbender) e aproveitando para detonar a cronologia histórica dos X-Men nos cinemas. Aí veio o segundo filme da segunda trilogia, tentando consertar essa bagunça criando através de outra bagunça uma outra linha temporal que deixou livre novos filmes de qualquer amarra com outros filmes já existentes. É com essa base que X-Men: Apocalipse chega, com personagens “novos” sendo apresentados, mas tendo já sua história contada no futuro que talvez não exista mais.

 

 

A franquia X-Men tem que se orgulhar por estar tanto tempo por aí e ainda fazer bons números na bilheteria, demonstrando ao menos que caiu no gosto do público. A sensação de ir assistir a um filme da franquia é de estar indo ver velhos conhecidos e com a curiosidade do que virá de novo – essa sensação é a mesma de assistir a um novo episódio do desenho animado dos anos 90. Ou seja, a produção chegou a um ponto que firmou os X-Men na cabeça de todos e a franquia não parece desgastada – isso se deve ao fato pela proeza, intencional ou não, te ter conseguido fazer um reboot sem dizer que é um.

 

E vamos falar sobre a estrutura da história. Neste novo episódio temos uma preguiça ou medo de não cometer o mesmo erro de X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido, descartando uma trama complicada e colocando em pauta uma simples história com um vilão megalomaníaco recrutando seus “minions” enquanto a turma do bem tenta resolver o problema. Certo, não é assim tão simples já que há reviravoltas no meio do caminho, mas percebe-se o quão superficial estão os desenvolvimentos de todos os personagens. Já que, que surpresa, Magneto pende para o lado do mal. Xavier é o otimista inveterado. Ciclope (Tye Sheridan) dá um vislumbre se ser rebelde, mas não é explorada essa mudança. Apocalipse (Oscar Isaac) é um velho babão. E não dá para engolir essa história de Mística (Jennifer Lawrence) como heroína, principalmente sendo usada como desculpa para vermos quase todo o tempo a cara da atriz. Portanto, há muitos personagens e o roteiro não conseguiu desenvolver com satisfação suas evoluções – não há uma boa Jornada do Herói visível ali. Precisava? Não se quer mesmo se manter simples, mas se quisesse ter mais conteúdo no roteiro, seria necessário uma identificação com alguém durante a aventura, coisa que não acontece. Somos passageiros na história e não nos apegamos a ninguém.

 

O elenco de sempre do filme faz um bom trabalho, desde as participações especiais como os integrantes fixos. Nicholas Hoult já se definiu como Fera – por sinal, esse personagem é super explorado por Xavier. Michael Fassbender e James McAvoy interagem muito bem juntos e com seus respectivos personagens, com Magneto sofrendo drasticamente com um roteiro que força a barra para deixá-lo mal de novo. Apenas Jennifer Lawrence que parece estar no automático, deixando claro que não está na produção por amor ao universo, se é que vocês me entendem. Os jovens atores, Tye Sheridan, Sophie Turner e Kodi Smit-McPhee, mesmo não tendo uma oportunidade real para desenvolver os seus mutantes dramaticamente – é nítido que a personagem Jean Grey é maior que a Turner, visto que todos nós já entendemos o que está acontecendo com ela (tanto em quadrinhos como cinematograficamente falando) e a atriz não teve tempo em tela de entender os poderes da personagem. Contudo, há um verdadeiro potencial jovem ali para seguir adiante com a franquia. Ah, Evan Peters e seu Mercúrio são um show à parte. Sem dar tanto spoiler, uma participação especial no filme, infelizmente, é mais engraçada do que impactante – desde o figurino que tenta ser parecido com a HQ, mas precisa mostrar o rosto do ator, tirando a ferocidade visual, quanto também essa mesma ferocidade não vir junto com um resultado realmente animalesco e violento como deveria ser.

 

 

Mesmo com essa última ressalva, percebemos que esse X-Men é o mais violento de todos e grotesco. Singer lembra muito Sam Raimi na transformação do Anjo (Ben Hardy) e o diretor junto com o roteiro permite deixar a trama bem mais mortal com essas mortes acontecendo, chega de eufemismos. Enquanto há momentos de ação com ótimos efeitos especiais, outros falham na computação gráfica, por sinal, um exemplo negativo e positivo envolve Mercúrio. O 3D tem bons momentos no filme e trabalha bem a profundidade de campo e algumas cenas de ação.

 

Mas em questão de maquiagem, figurino e efeitos especiais, quem saiu mais prejudicado foi Apocalipse. O resultado final transformou mesmo Oscar Isaac em um vilão dos Power Rangers e percebe-se o quão duro ele está dentro daquela roupa, mal conseguindo levantar os braços ou fechar as mãos – só faltou andar como um pinguim. O narigão e a cara de botox envelhecido também não ajudou, apesar que esse visual é coerente com o personagem no filme – de jeito nenhum com o dos quadrinhos.

 

O filme é mais uma aventura, dessa vez descompromissada, dos X-Men. Com direito a um momento “o poder da amizade” ou melhor “o poder de um amigo overpower”, X-Men: Apocalipse demonstra que está bem à vontade com o universo que criou e se dá o direito até mesmo de brincar consigo mesmo com a cena no cinema. A franquia deve continuar, e já deixou seu gancho com a cena no final de todos os créditos.

 

 

7.6

Bom

Prós
  • Filme evita complicações e traz uma aventura divertida
  • Evan Peters continua arrasando como Mercúrio e tendo boas cenas
Contras
  • O vilão Apocalipse foi adaptado de forma terrível, parecendo um velho pervertido dentro de uma roupa de borracha
  • A maioria dos personagens tem seus desenvolvimentos tratados de forma superficial, enquanto outros mantém o ciclo repetitivo de envolvimento
  • A trama é simples demais e para se manter assim força a barra em algumas resoluções de arco, como a de Moira
  • Jennifer Lawrence está no automático e não faria mais falta nos próximos filmes
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