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Porta dos Fundos: Contrato Vitalício

Comédia é super engraçada e repleta de elementos nonsense

Por Carla Braga - 01 Jul 2016 às 18:46h

É sempre legal quando um grupo de comédia faz sucesso o suficiente para migrar para um modelo midiático mais conceitado. O maior exemplo em escala mundial disso é Monty Phython, série britânica que foi ao ar pela primeira vez em 1969 e apenas dois anos depois conseguiu lançar o que seria o primeiro de vários filmes. Agora, o mesmo acontece com o fenômeno nacional que é Porta dos Fundos. Em 2012, o programa começou como um canal no Youtube, que atingiu a marca de 30 milhões de visualizações em apenas em seis meses. Em 2015, o grupo já estava na televisão, e, agora, em 2016, chega o seu primeiro filme, chamado Porta dos Fundos: Contrato Vitalício e com direção de Ian SBF.

Na trama do filme, o ator Rodrigo (Fábio Porchat) e o diretor Miguel (Gregório Duvivier) estão na cerimônia do Festival de Cannes quando são surpreendidos com a vitória do filme que foram representar no local. Na manhã seguinte, Rodrigo acorda com a ausência de Miguel, que só reaparece dez anos depois. Agora, Rodrigo está rico e famoso, o típico galã das novelas de horário nobre, e fica mais do que contente ao reencontrar o antigo amigo perdido. No entanto, tudo muda quando ele é obrigado, graças a um contrato vitalício que redigiu bêbado na noite anterior ao desaparecimento de Miguel, a estrelar na nova produção do cineasta, que pretende adaptar para os cinemas as aventuras que viveu durante a década que passou sumido.

Com roteiro de Gabriel Esteves e Fábio Porchat, a comédia traz um ar necessário de inovação às produções nacionais e, inclusive, tira onda do formato engessado de se produzir conteúdo por aqui (principalmente pela Globo). Os personagens são hilários, e a única pessoa aparentemente normal é Rodrigo, vivido muito bem por Porchat. Mas os destaques ficam justamente com os personagens coadjuvantes caricaturados de propósito, a exemplo de Marco Veras na pele de Lorenzo, o típico jornalista superficial sedento por fofocas e intrigas, que rouba a cena tamanha a sua superficialidade cômica, e de Thati Lopes na pele de Fernanda, a namorada de Rodrigo e blogueira fitness/beleza - obcecada pelas redes sociais e que mede tudo através de likes, inclusive, a relevância do seu namoro. 

No entanto, apesar de possuir inúmeros momentos hilários, que por si só valem a ida ao cinema para ver o filme (afinal, são poucas as comédias genuinamente hilárias hoje em dia), o roteiro comete alguns pecados graves, e os dois principais são o arco do protagonista e as piadas machistas.

De início, o roteiro cria a ideia de que o foco da trama de Rodrigo será o fato dele ser a única pessoa que enxerga a loucura a sua volta, mas migra de forma abrupta para a tarefa de desmascarar a superficialidade da sua vida, que precisará ser corrigida. O despertar do personagem para essa necessidade acontece do nada e dita em voz alta por ele mesmo - prova de que os próprios roteiristas reconhecem que a metamorfose da trama do protagonista foi rápida demais e que o público poderia ficar perdido caso ele não verbalizar isso.

A segunda problemática no roteiro é a misoginia exasperada em algumas falas, principalmente, ditas pelos personagens de Porchat e Gregório Duvivier - fica até difícil lembrar dos textões feministas que Duvivier posta online sabendo que ele escolheu viver um personagem tão machista. A visão que a dupla Rodrigo e Miguel tem sobre as mulheres é problemática e vomitada em falas desnecessárias e até constrangedoras. Elas são ditas de forma rápida, como quem não quer nada, e, rapidamente, os personagens já estão em outro tema como se não tivesse acontecido nada. Felizmente, tais piadas são minoria no contexto do filme.

De qualquer forma, o teor de nonsense e bizarrice, as falas improvisadas ou que soam assim tamanha a coloquialidade delas (algo típico em Porta dos Fundos), os momentos que fazem o cinema inteiro rir alto e a ambientação metalinguística nos bastidores de um filme épico são elementos extremamente positivos e animadores para a produção fílmica cômica brasileira, que parece, finalmente, sair dos modelos sem graça da TV aberta com um baita empurrão do Porta dos Fundos; que venham mais comédias assim, porém aprimoradas! 

 

8.8

Ótimo

Prós
  • Personagens criados de forma inusitada e bem trabalhados
  • Direção com personalidade e que só soma forças ao roteiro
  • Elenco super vasto e talentoso - sem falar nas inúmeras participações especiais
  • Comédia, genuinamente, engraçada em diversos momentos
Contras
  • Piadas muito machistas, principalmente, em relação a como os protagonistas enxergam as mulheres
  • Transformação abrupta do personagem principal; não há desenvolvimento para a metamorfose que sofre perto do final

8.8

Ótimo

Prós
  • Personagens criados de forma inusitada e bem trabalhados
  • Direção com personalidade e que só soma forças ao roteiro
  • Elenco super vasto e talentoso - sem falar nas inúmeras participações especiais
  • Comédia, genuinamente, engraçada em diversos momentos
Contras
  • Piadas muito machistas, principalmente, em relação a como os protagonistas enxergam as mulheres
  • Transformação abrupta do personagem principal; não há desenvolvimento para a metamorfose que sofre perto do final
Antes de Watchmen: Espectral
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