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Preacher – 1ª temporada

Série começa bem e diferente, mas não mantém seu status cool

Por Rafael Sanzio - 01 Ago 2016 às 14:07h

Quem conhece o material original do qual a série é baseada, a HQ da DC Vertigo de 1995 – escrita por Garth Ennis, percebeu logo no primeiro episódio da série Preacher que os roteiristas, Sam Catlin, Evan Goldberg e Seth Rogen, criaram várias licenças poéticas. Enquanto que na revista o leitor é jogado nessa perseguição ao trio principal, a fuga de Gênesis e uma caçada encabeçada pelo Santo Assassino, na série, a história é construída em torno de uma cidadezinha do Texas, seus habitantes estranhos e falhos e um Pastor tentando redimir seus erros. Por mais que esse novo ângulo tenha dado certo, foi perceptível que um dado momento da trama eles já estavam enrolando sua estadia na cidade.

O programa acompanha Jesse Custer (Dominic Cooper), um ex-criminoso que retorna à igreja do pai em uma cidadezinha do Texas com a nítida intenção de redimir dos seus pecados, além de estar cumprindo uma promessa. Enquanto isso, uma entidade cósmica mantida pelos anjos escapa de seu cárcere, procurando um hospedeiro pela Terra. O pastor acaba sendo o escolhido e com isso recebe o dom da Palavra de Deus, um poder que obriga as pessoas a fazerem o que ele pedir.

O episódio piloto da série, dirigido por Evan Goldberg e Seth Rogen, acerta em cheio em vários aspectos, entre eles, a edição. O programa tem um ritmo próprio, é desafiador e possui aquela aura cool, como o próprio Jesse, e trabalha de forma excepcional para apresentar os personagens – com destaque para Tulipa (Ruth Negga). A diferença entre a revista e o programa já começa aqui, a turma responsável pela adaptação optou por cria uma base de identificação com todos os personagens – sem utilizar coincidências que juntariam todos e já fariam com que os três, Cassidy (Joseph Gilgun), Jesse e Tulipa, viajassem em busca de Deus como foi na HQ.

Porém, da mesma forma que temos tempo de nos identificar com eles e com os habitantes da cidade, deu tempo também de ficar monótono alguns episódios, com uma leve enrolação e arrastada de acontecimentos. Se por um lado há momentos inusitados graças a isso, há decepções, como a trama do Odin Quincannon (Jackie Earle Haley), que parecia promissora até se perder diante das forçadas de humor negro da história. Exatamente, Preacher até o episódio seis, Sundowner, desenvolvia bem as subtramas e os elementos sobrenaturais, equilibrando-os. Contudo, quando acontece o confronto entre os anjos, Jesse e Serafim – com uma pitada de Cassidy depois, o clima de um possível terror foi por água abaixo.

Até então Preacher tinha essa pegada rebelde e incômoda, com um terror grotesco – vide Cara de Cú (Ian Colletti) – e um terror psicológico, com as menções a pedofilia e psicopatia e estupro. Porém, algo acontece, e o humor se faz mais presente – por um momento temi até mesmo que a série se transformasse em um novo Supernatural. E com isso o programa perdeu sua essência, aquela essência que fazia lembrar a HQ – porque fiel mesmo a AMC não teve coragem de ser. Tanto que a season finale, Call and Response, é terrível. Os acontecimentos perdem seu impacto em meio aos momentos de humor, e a grande revelação no final, por mais que seja um embuste, é terrivelmente malfeita (e apesar de, certa forma, fazer referência a HQ).

Em compensação o elenco e os personagens estão ótimos. Jesse Custer aqui é bem mais amargurado e, porque não dizer, bonzinho. Os produtores vestiram a capa de herói nele e é até difícil vê-lo como alguém sacana, mesmo com suas falhas durante a história. Dominic Cooper leva bem a trama como protagonista. E a amizade entre o pastor e Cassidy dá muito certo pela química entre os atores. Joseph Gilgun além de se parecer com a versão dos quadrinhos visualmente, temos a melhor adaptação de personagem da HQ para série – é como se fosse “como seria Cassidy em uma série de TV com uma censura menor?”. A Tulipa, interpretada por Ruth Negga, ganhou muito mais força na série e abandona qualquer resquício de “donzela em perigo” que as vezes há na HQ. O foco maior na trama dos anjos deu uma esquisitice bem vinda à série e os atores Tom Brooke (Fiore) e Anatol Yusef (DeBlanc) possuem uma interação divertida e com dicas de um relacionamento amoroso tenro.

Evan Goldberg e Seth Rogen acertaram ao trazer Preacher para a TV e conseguiram criar um tom bacana e original para a série, o problema é que não conseguiram manter esse tom em apenas 10 episódios, o que é preocupante. Vamos torcer para que o último episódio não tenha afundado o programa e que a segunda temporada, que parece chegar no ponto onde a HQ começa, possa trazer mais episódios com o visual e edição “cool” e com um clima meio road-movie dirigido por Quentin Tarantino.

 

7.8

Bom

Prós
  • Os atores estão bem em seus papéis, seja por parecerem com o personagem, como Cassidy, como inovar de uma forma positiva, como Tulipa
  • Até a metade da temporada você embarca na trama sem se questionar para onde ela vai
  • A direção acerta no estilo visual e edição do programa
Contras
  • A série perdeu o foco ao aumentar o humor e correr o risco de parecer com Supernatural
  • A cena toda na igreja, no último episódio, pareceu um vídeo do Porta dos Fundos
  • A season finale errou no humor e entregou algumas finalizações sem o devido impacto
Antes de Watchmen: Espectral
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