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As melhores produções estreladas por atores negros

Infelizmente, elas ainda não acontecem com a frequência que deveriam acontecer

Por Carla Braga - 19 Out 2016 às 12:02h

Representatividade é uma palavra importante. Quem não gosta de se sentir representado, em algum nível pelo menos, quando está assistindo a algum filme/série ou jogando algum vídeo game? Seja vendo algo filmado onde você nasceu ou vendo algum ator que pareça com você. Infelizmente, isso não ocorre com tanta frequência assim quando não se é branco. Se tomarmos o Brasil como exemplo, onde 54% da população é negra, mas pouquíssimas novelas retratam de forma fidedigna (sem ser de forma subalterna), em larga escala e com protagonistas a parcela da população negra, a falta de representatividade fica bem evidente.

O mesmo ocorre nos Estados Unidos, em que a maior premiação do cinema, o Oscar, persiste em ignorar produções negras (ou estreladas por afrodescendentes), com raras exceções. Mas, mesmo se a Academia (e seus jurados idosos e brancos) prestasse atenção de forma equilibrada em produções não-brancas, ainda existiria um grande detalhe: onde estão as oportunidades? Como queremos indicações equilibradas entre brancos e negros nas premiações se boas oportunidades para profissionais afrodescendentes ainda são escassas no entretenimento?

Aos poucos, ganha-se espaço e surgem produções não só criadas por negros para negros, mas aquelas produzidas por quem quer que seja que contrate atores afrodescendentes porque eles, simplesmente, são bons profissionais e conseguiram o papel; independentemente da sua etnia. Ainda estamos longe de um mundo igualitário em termos raciais e culturais, mas já existem inúmeras produções estreladas por atores negros na pele de personagens redondos e não estereotipados – claro que essa quantidade não chega nem perto do montante de produções estreladas por atores brancos.

De qualquer forma, compilamos abaixo as melhores produções protagonizadas por afrodescendentes na esperança de que elas se tornem tão recorrentes como qualquer outra e que, um dia, uma matéria como essa perca relevância, simplesmente, porque atores negros em papéis de destaque será algo corriqueiro.

Luke Cage

Luke Cage, a mais recente produção da Netflix em parceria com a Marvel, possui um peso importante para a história: foi a primeira série estrelada por um super-herói negro. Com uma responsabilidade tão grande nas costas, a trama precisou abordar diversos temas importantes para o contexto atual da população afrodescendente norte-americana, como o fato de jovens negros serem muito mais abordados do que brancos pela polícia e acabarem morrendo, gratuitamente, pelas mãos de uma instituição que deveria proteger a população, as vezes, apenas por estarem vestindo um casaco com capuz, por exemplo.

O programa traz ainda um personagem complexo, vivido pelo excelente Mike Colter, que é muito mais um ser humano repleto de traumas do que um super-herói estereotipado. Inclusive, o seriado poderia ser, muito bem, sobre um homem problemático com um passado sombrio em meio a uma sociedade corrompida – sem a existência de superpoderes. Luke Cage ainda conta com um elenco negro amplo e bem representado, tanto homens como mulheres, e insere o hip hop, música criada pela cultura afrodescendente, de forma intensa na sua narrativa.

How to Get Away With Murder

A série How To Get Away With Murder, transmitida pela ABC desde 2014 e produzida por Shonda Rhimes (produtora, roteirista e cineasta negra), é um dos melhores seriados dramáticos no ar no momento graças, principalmente, a sua protagonista vivida por Viola Davis, que, em 2015, foi a primeira atriz negra da história a ganhar um Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática pelo seu trabalho. Na pele de uma professora de direito de uma universidade de prestígio da Filadélfia, que se envolve em uma rede se assassinatos, Davis dá vida a uma personagem excepcional que, se criada anos atrás, teria sido passada, provavelmente, para uma atriz branca.

Straight Outta Compton: A História do N.W.A.

Lançado em 2015, Straight Outta Compton: A História do N.W.A. foi sucesso de bilheteria e crítica, levantando suspeitas de que seria indicado ao Oscar em categorias importantes, como Melhor Diretor e Melhor Filme – algo que não aconteceu, já que o longa foi indicado apenas na categoria de Melhor Roteiro Original. O longa biográfico é ambientado nos anos 80 durante o surgimento do grupo de hip hop N.W.A., um dos membros mais importantes do controverso subgênero gangasta rap e um dos mais influentes para a história do hip hop. Portanto, todos os protagonistas (Eazy-E, Ice Cube e Dr. Dre.) são negros, assim como os personagens em sua maioria. Se você curte hip hop, este é o filme para você entender como a cena da época influenciou a imagem que o gênero possui hoje em dia.

Scandal

Scandal é outra série dramática da ABC produzida por Shonda Rhimes. Portanto, sua protagonista é outra personagem complexa e bem construída e interpretada por uma atriz negra, a Kerry Washington. A protagonista é Olivia Pope, uma ex-funcionária da Casa Branca responsável pela criação de uma empresa de gestão de crises, inspirada na assessora de imprensa do governo de George W. Bush, a Judy Smith (uma mulher negra na vida real), que acaba se envolvendo emocionalmente com o presidente fictício da trama. A série recebeu críticas positivas desde o seu começo e segue firme e forte desde 2012, com episódios já garantidos até 2017.

Watch Dogs 2

O game Watch Dogs 2, desenvolvido pela Ubisfot, é um jogo de ação/aventura que será lançado em novembro deste ano para dar continuidade ao título original de 2014. Mas a melhor parte da divulgação do lançamento é o seu protagonista! Marcus Holloway dá cara ao jogo e foi criado para ser um hacker jovem e inteligente da Califórnia que, após ser acusado erroneamente por um crime que não cometeu por um sistema que conecta informações pessoais com crimes, vai à São Francisco para trabalhar com o grupo hacker DedSec a fim acabar com o sistema que o incriminou e proteger a população da cidade! Isso sim é um herói moderno, né? Ah, e a parte mais legal nisso tudo é que Holloway é negro.

12 Anos de Escravidão

Apesar de produções que remetem ao tempo da escravidão serem mais danosas do que benéficas nos dias atuais para a representação afrodescendente na mídia, 12 Anos de Escravidão vai contra esta corrente ao adaptar um livro de memórias de 1853 escrito por Solomon Northup, um homem negro nascido livre, mas que foi sequestrado e obrigado a trabalhar como escravo por 12 anos no século XIX. Um filme com uma história tão delicada dirigido, roteirizado e estrelado por pessoas negras não podia ser ignorado; e não foi. A produção foi aclamada pela crítica e indicada a nove categorias do Oscar, vencendo três: Melhor Filme, Melhor Atriz Coadjuvante (Lupita Nyong'o) e Melhor Roteiro Adaptado.

Tangerine

Tangerine é outra produção que meche forte com as emoções. O dramedy, filmado todo com iPhones 5s e aclamado pela crítica mundo à fora, foca na história de duas mulheres negras transgênero, evidenciando, de forma bem-humorada e sutil, as tragédias que uma sociedade transfóbica, racista e machista exerce e, principalmente, já exerceu sobre a vida de mulheres trans – de forma ainda mais intensa quando elas são negras. Kitana Kiki Rodriguez vive Sin-Dee Rella, uma prostitua trans que, após descobrir que o seu namorado está a traindo com uma mulher cis (pessoa que se identifica com seu gênero de nascimento) durante uma conversa com a amiga também trans Alexandra, vivida por Mia Taylor, sai em busca do cara. A história é original e retrata muito bem relacionamentos como amizades e de traição, ao mesmo tempo em que realiza críticas ferrenhas a nossa sociedade. Tangerine foi apontado por muitos críticos como um dos melhores filmes de 2015.

Amigos Indiscretos e O Natal dos Amigos Indiscretos

A franquia, que possui dois filmes, Amigos Indiscretos (1999) e O Natal dos Amigos Indiscretos (2013), é toda estrelada por atores negros, como Terrence Howard, Taye Diggs e Nia Long e dirigida por Malcolm D. Lee. Enquanto que os longas são legais, mas nada fenomenais, eles retratam um grupo de amigos todos negros e suas respectivas vidas, tanto profissionais como românticas. Produções com uma pegada cômica, romântica e dramática focada em amigos são inúmeras em Hollywood, mas quantas delas contam com protagonistas todos negros e são dirigidas por pessoas negras? Pouquíssimas! Esses dois filmes acabam exercendo, portanto, um papel social ainda mais importante do que cinematográfico.

Um Maluco no Pedaço

Produções estreladas por certos atores precisavam ser mencionadas aqui, e um dos nomes mais importantes de Hollywood há um bom tempo é Will Smith. O ator de peso já estrelou várias produções que poderiam estar na lista, como À Procura da Felicidade, Bad Boys e Eu, Robô, mas escolhemos Um Maluco no Pedaço, série que o tornou famoso como ator internacional, pelo fato da produção ser toda estrelada por atores afrodescendentes – e nosso apego emocional a ela, afinal, quem não a assistia nos finais de semana no SBT? Exibida, na NBC, entre 1990 e 1996, Um Maluco no Pedaço conseguiu frisar de forma engraçada e bem-humorada os problemas e padrões duplos de uma sociedade marcada por problemas raciais. Mas, além disso, contou com um protagonista altamente carismático, que tirava todos os outros personagens do sério e fazia a audiência rir alto!

Beasts of No Nation

Baseado no romance homónimo do autor nigeriano Uzodinma Iweal, Beasts of No Nation é um filme de guerra norte-americano criado pela Netflix. Mas, ainda mais importante, é estrelado por dois personagens negros impactantes, o Comandante (Idris Elba) e Agu (Abraham Attah), em meio a um país não especificado da África em guerra civil. Agu, um menininho outrora inocente, torna-se em soldado infantil durante a guerra e acaba conhecendo a figura vivida por Elba. A história do garoto é emocionante e não nos poupa dos detalhes sórdidos, que uma realidade problemática como a dele pode desencadear (e já desencadeou e desencadeia até hoje em dia). Beasts of No Nation é uma produção pesada, mas necessária e pode ser conferida a qualquer momento na Netflix.

O Professor Aloprado

O número 10 da lista do Comedy Central dos 100 Maiores stand-ups de todos os tempos, Eddie Murphy também não poderia ficar de fora desta lista com alguns dos seus protagonistas. Mas qual personagem escolher? Murphy já foi indicado ao Globo de Ouro por personagens em 48 Horas, Um Tira da Pesada e O Professor Aloprado e, em 2007, foi homenageado pela premiação, finalmente, pelo trabalho que fez em Dreamgirls. Portanto, fica difícil escolher apenas um filme, mas acabamos ficando com O Professor Aloprado, clássico da Sessão da Tarde, por colocar o ator na pele de um professor de genética, servindo de representação para as gerações que cresceram assistindo ao longa. Ah, e por ser bem engraçado.

Malcolm X

Denzel Washington e Spike Lee também não poderiam ficar de fora desta lista. O ator e diretor são dois dos principais nomes de afrodescendentes no entretenimento. Portanto, Malcom X, produção sobre a vida de um dos maiores defensores do Nacionalismo Negro nos Estados Unidos, em que Washingtom e Lee atuaram juntos e Lee dirigiu, finaliza a compilação. E como não? Uma produção tão significativa para a história negra nos Estados Unidos precisava ser mencionada aqui. Na pele do protagonista, Washingtom, que recebeu uma indicação ao Oscar pelo trabalho, traz à tona a importância que a militância de Malcom X teve para a história. E vale frisar ainda que o filme foi selecionado para preservação na National Film Registry pela Biblioteca do Congresso norte-americano como sendo "culturalmente, historicamente e esteticamente significante".

Menções honrosas: Tina; Sexta-Feira em Apuros; Noivo em Pânico; Faça a Coisa Certa; CB4; Juice; Love Jones; New Jack City: A Gangue Brutal; Perigo para a Sociedade; Uma Festa de Arromba; Hotel Ruanda.