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HBO e a estratégia do sexo

A primeira temporada é uma loucura, depois...

Por Rafael Sanzio - 19 Out 2016 às 16:18h

Após tantas temporadas de Game of Thrones, você passa a se acostumar com o clima da série e a esperar algumas coisas em seus episódios, mas foi a falta de algo que me fez notar uma estratégia do aclamado canal HBO e suas séries: o sexo. Claro que a proposta da maioria das séries da emissora é apresentar temas maduros e, com isso, tratar o sexo como algo rotineiro e normal na vida dos personagens. Contudo, se você parar para notar, eles utilizam o sexo como uma isca para os telespectadores – por mais inapropriado que isso possa soar.

Vamos pegar como exemplo Game of Thrones. A primeira temporada dessa série apresentava o corriqueiro sexo todo episódio ou o sexo sem pudor de mostrar o corpo dos atores envolvidos na cena. É o típico seriado que não dá para assistir com os pais sem um momento de constrangimento com tantos peitos, bundas e gemidos por alguns minutos aparecendo na tela. Isso com certeza aconteceu com outras séries do canal, em um certo nível, como True Detective, Boardwalk Empire e Deadwood.

Mas qual a importância da primeira temporada para essas séries e para a estratégia do canal? Bem, a HBO é conhecida pela qualidade dos seus programas, mas ao observar o conteúdo das temporadas seguintes, há uma queda significativa no conteúdo sexual ou mais explícito, em comparação a primeira temporada. O que isso significa? Significa que, apesar de conhecer bem seu conteúdo, ela precisa de uma “isca” para certos tipos de telespectadores, para, após serem fisgados, se manterem no programa por causa de sua história e gradativamente vai retirando o excesso de sexo já conhecido do canal. Quem assiste Game of Thrones agora mal se lembra como era a suruba da primeira temporada. A mesma coisa aconteceu com True Detective, mesmo tendo uma orgia rolando, as aventuras de Hart (Woody Harrelson) na primeira temporada foram bem mais explícitas – que o diga os fãs traumatizados do filme Percy Jackson.

Apresentar o sexo é ruim? De forma alguma, visto o já comentado nesse artigo sobre o motivo de maturidade da trama da série, mas é bem perceptível após ter a noção de que realmente o início de um programa possui esse investimento carnal para manter o público. Contudo, nem todas as séries da HBO se desfazem do sexo após a fidelidade do telespectador. E aí temos a segunda estratégia: a utilização do sexo como recurso narrativo.

True Blood e Girls são bons exemplos dessa tática. O primeiro é fácil de explicar, já que vampiros são conhecidos como criaturas sobrenaturais altamente sexualizadas e que usam de seu charme para conquistar e envolver suas vítimas – aí você soma HBO à receita e tem um prato cheio. Quanto a Girls, a dramedy usa o sexo e a nudez como forma de desmitificá-los, com o cotidiano de pessoas comuns e seus relacionamentos comuns e o uso da nudez de forma comum e não como um endeusamento da “hora da cena de sexo!”. Usar como ferramenta e até mesmo conduzir uma trama, como no caso do vampiro Eric (Alexander Skarsgard) seduzindo o namorado do vilão, é bastante interessante – mas, no próprio True Blood, dava para perceber o exagero para tapar uma possível falta de conteúdo na trama.

Há legitimidade em usar o sexo em suas produções, mas não deixa de ser irônico o fato de que apesar da famosa qualidade das séries da HBO, ela ainda aparentar utilizar-se desse recurso para atrair o público. Westworld começou sua primeira temporada e aparenta utilizar a segunda estratégia do sexo da HBO como recurso narrativo. Há sexo em cada episódio, mas o programa parece bem na vibe do que já foi a segunda temporada de Game of Thrones. E isso é ótimo.

O sexo gratuito na história, apesar do público poder concordar que é um ótimo entretenimento, não é realmente necessário, como os próprios programas demonstram nas temporadas subsequentes. E aí? Quem sente saudades da primeira temporada de Game of Thrones?