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Switch: uma jogada inteligente da Nintendo ou mais do mesmo?

A empresa sempre inova, mas acaba a um passo atrás da concorrência

Por Rodrigo Brandão - 29 Out 2016 às 09:19h

Após muita especulação e vazamentos de patentes, a Nintendo finalmente anunciou o Switch, seu console doméstico da nova geração. Responsável pela ressurreição da indústria de games na década de 80, a Nintendo é detentora de inovações até hoje utilizadas na indústria de games, como por exemplo, o direcional em forma de cruz, os botões de ombro do controle, o direcional analógico e o controle sem fio. Desde que há 10 anos deixou de competir diretamente com a Sony e Microsoft no mercado de consoles domésticos, a Nintendo tem enfrentando um desafio cada vez maior a cada geração, passando a focar em hardwares menos potentes do que a concorrência, porém recorrendo ao fator inovação que a consolidou na indústria. Com o Switch dividindo a opinião da comunidade gamer e da crítica especializada por não conter o invencionismo de seus consoles anteriores, a Nintendo agora talvez esteja enfrentando um dos maiores desafios de sua existência, que ameaça a sua permanência no mercado de hardware.

 

Uma breve análise da história recente de inovação da Nintendo

Em qualquer indústria, os produtos são criados baseados nas necessidades mercadológicas. O designer Henry Benavides Puerto afirma que a invenção é o processo de descoberta de um princípio, enquanto considera inovador um produto que atende a uma necessidade social latente e que atinge com sucesso um mercado. Empresas inovadoras muitas vezes agem de forma metódica, calculando riscos, estudando tendências para criar produtos que geram nichos inexistentes.

Na década de 90, o engenheiro norte-americano Tom Quinn utilizou o princípio milenar do giroscópio para criar um controle com sensor de movimentos para aviões, mas um insight levou-o a ofertar o seu invento para a indústria de videogames. Após amargar reuniões desagradáveis com os figurões da Sony e Microsoft, Quinn felizmente conseguiu fechar uma parceria com a Nintendo para criar o inovador controle Wii Remote.

 

Wii Remote, o inovador controle com sensor de movimentos.

Entretanto, controles com sensor de movimento não são uma novidade na indústria de games. O simulador de pesca Sega Bass Fishing (1997) já tinha um controle que utilizava acelerômetros para capturar os movimentos do jogador de forma bastante similar ao Wii Remote. Apesar da tecnologia promissora, na época sua aplicação ficou limitada aos jogos de pesca da Sega lançados para o arcade e o Dreamcast (o console da 6º geração da Sega). Mudar ou aprimorar o paradigma da interface manual sempre foi um dos artifícios de inovação da Nintendo, vide o portátil DS (2004), que continha duas telas, sendo uma delas sensível ao toque, um feito realizado muito antes da Apple com seu revolucionário iPhone em 2007.

 

Controle com sensor de movimento do Sega Bass Fishing.

A forte concorrência da Sony e Microsoft fez a Nintendo reavaliar seu posicionamento estratégico na indústria de games. Após revelar o Wii para o mundo na E3 2005, ficou claro que a Nintendo tinha adotado a estratégia do oceano azul, que consiste em investir num mercado inexplorado, com alta margem de lucro. Apesar deste termo ser recente, proveniente do livro “A Estratégia do Oceano Azul” lançado em 2005 por Chan Kim e Renée Mauborgne, trata-se da competição acirrada das empresas no mercado globalizado. O oceano vermelho consiste num mercado disputado por empresas com modelos de negócio e estratégias similares, com menos investimento em criatividade e menor margem de lucro.

Ao enxergar um nicho de mercado ainda inexistente composto pelos jogadores casuais e não jogadores, a Nintendo também passou a focar em jogos casuais. E isso bem antes do alvorecer do mercado mobile (smartphones e tablets) pela Apple, Google e Microsoft. O próprio nome do console, a palavra inglesa “we” ("nós", em português), evidenciou a nova estratégia da Nintendo, cujo objetivo foi expandir a demografia e conquistar todos os públicos. Além de ter sido um grande sucesso de vendas, com cerca de 101 milhões de unidades vendidas no mundo todo, o Wii ocupa a quinta posição na lista de consoles mais vendidos. 

 

Wii U: um fracasso comercial?

Mesmo dotado de um conceito sólido, o sucessor Wii U fracassou por uma falha de comunicação do marketing, que fez muitos consumidores acharem que o console era similar ao seu antecessor. Junte a isso o fato do hardware ser similar aos consoles da geração passada (PlayStation 3 e Xbox 360). Apesar do Wii U ter mantido o suporte aos controles Wii Remote, seus maiores trunfos foram o controle com tela sensível ao toque (bem similar a um tablet), o bom uso do conceito de duas telas (simultaneamente da TV e do controle, de modo que este último pode dispensar o uso da TV) e a jogabilidade assimétrica (jogadores interagindo de forma diferente no mesmo jogo).

Mesmo com as baixas vendas, o Wii U teve jogos excelentes de franquias consagradas da Nintendo, como o Super Mario 3D World, Mario Kart 8 e Super Smash Bros., além de novas franquias, como Splatoon. Todos esses títulos tiveram vendas bastante expressivas, principalmente para uma base de usuários tão pequena (13,36 milhões de unidades) se comparada aos consoles da Sony e Microsoft.

 

10 JOGOS MAIS VENDIDOS DO WII U

 

Jogo

Ano

Unidades Vendidas (milhões)

1

Mario Kart 8

2014

6.96

2

New Super Mario Bros. U

2012

5.19

3

Super Smash Bros.

2014

5.02

4

Splatoon

2015

4.57

5

Nintendo Land

2012

4.44

6

Super Mario 3D World

2013

4.25

7

Super Mario Maker

2015

3.18

8

New Super Luigi U

2013

2.22

9

The Legend of Zelda: The Wind Waker

2013

1.77

10

Wii Party U

2013

1.77

Fonte: VGChartz

 

OITAVA GERAÇÃO DE VIDEOGAMES

Console

Ano de Lançamento

Unidades Vendidas (milhões)

Wii U

2012

13.36

PlayStation 4

2013

43.38

Xbox One

2013

22.25

Fonte: VGChartz

 

Switch: uma incógnita no futuro da Nintendo

O Switch dá continuidade à proposta de duas telas e jogabilidade assimétrica do Wii U, porém vai fundo no fator mobilidade. Mas acima de tudo, este console híbrido é uma jogada estratégica da Nintendo, que cada vez mais tem perdido espaço na indústria do entretenimento interativo. Unificar os segmentos portátil e de mesa num só console foi fruto da necessidade de sobrevivência num mercado cada vez mais fragmentado e concorrido, já que os gastos com desenvolvimento de hardware são exorbitantes e a indústria de games atualmente passa por uma turbulenta fase de ascensão do mercado mobile e no declínio das plataformas tradicionais.

  

A Nintendo perdeu espaço até mesmo no mercado de consoles portáteis, nicho que ela mesma criou e reinou absoluta por mais de 30 anos (considerando o Game & Watch, lançado em 1980). Isso ocorreu devido a popularização dos smartphones e tablets e também por conta da consolidação de novos modelos de negócio no mercado mobile, como por exemplo o free-to-play. A oferta de games gratuitos de ótima qualidade nos dispositivos móveis é muito grande, o que ocasionou a fragmentação do público gamer. Por outro lado, a Nintendo conseguiu a proeza de tornar o DS o portátil mais vendido de todos os tempos, com 154,8 milhões de unidades. Recentemente a Nintendo declarou que apesar do Switch ser uma proposta híbrida, a empresa tem planos de lançar um novo console portátil.

 

VENDAS DOS CONSOLES PORTÁTEIS

Portátil

Lançamento

Unidades vendidas

Game & Watch

28 de abril de 1980

43.4 milhões

Game Boy

21 de abril de 1989

118.7 milhões

Game Boy Color

21 de outubro de 1998

80.8 milhões

Game Boy Advance

21 de março de 2001

81.5 milhões

Nintendo DS

2 de dezembro de 2004

154.8 milhões

Nintendo 3DS

26 de fevereiro de 2011

60 milhões

PlayStation Portable

12 de dezembro de 2004

80.8 milhões

PlayStaion Vita

17 de dezembro de 2011

14.3 milhões

Fonte: VGChartz

Há várias gerações o calcanhar de Aquiles dos consoles de mesa da Nintendo é a falta de apoio das empresas (third party), algo que criou o estigma na comunidade gamer de que apenas os fãs consomem os consoles da Nintendo. A boa notícia é que o Switch já tem a vantagem de contar com o dobro de apoio das empresas com relação ao Wii U, mesmo que alguns jogos exibidos no vídeo de apresentação do console não terem sido confirmados ainda.

Antes do anúncio feito no dia 20, as ações da Nintendo tinham subido 4%, mas caíram 6% um dia após o anúncio do console. Devido a seu incontestável legado, a Nintendo tornou-se refém de seu próprio ciclo de inovação, o que muitas vezes é erroneamente confundido com orgulho. A recepção maravilhosa de Pokémon GO e o anúncio de Super Mario Run são indícios de que os gestores atuais da Nintendo abriram suas mentes para o atual modelo de negócios da indústria de games. Em indústrias extremamente criativas como a de games, essa atmosfera de incerteza pode emergir parcerias inusitadas e novidades revigorantes, tão necessárias aos difíceis tempos atuais.

O Nintento Switch será lançado em Março de 2017.