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A burrice crônica dos personagens de filmes de terror

Pedimos para uma psicóloga tentar explicar o que acontece com eles

Por Rafael Sanzio - 29 Out 2016 às 10:08h

Quem nunca chamou de burro aquela pessoa que no meio de um filme de terror, em uma casa abandonada, com barulhos estranhos, ao invés de escolher ir embora decide ir "investigar"? Ou melhor, minha esposa está sendo possuída, mas tudo bem, vamos passar a noite na casa e ir só amanhã de manhã. E porque as pessoas ficam paralisadas ao invés de correrem quando um monstro está vindo em sua direção?!

A maioria desses questionamentos pode ser resolvida como um simples "porque o roteiro quer", mas no clima do Halloween decidimos dar um crédito para esses personagens "burros" e fazer justiça com eles! Ninguém sabe como pode ser traumatizante ver amigos morrerem, ser perseguida por horas a fio deixando sua mente em frangalhos e ver uma criatura que distorce seus conceitos de realidade pode ser algo chocante e paralisante. 

Para nos ajudar a entender um pouco da mente desses personagens durante essas cenas, entrevistamos a Samira Gonçalves Queiroga da Costa, Psicóloga, que vai dar palpites do que cada tipo de personagem poderia estar sofrendo, porque sabemos que uma análise real envolveria vários fatores para dar um parecer definitivo – além de cada pessoa ter sua própria percepção de mundo.

Para a psicologia, o que é o medo?

Samira: O medo é um estado de progressiva insegurança e angústia, de impotência e invalidez crescentes, ante a impressão iminente de que sucederá algo que queríamos evitar e que progressivamente nos consideramos menos capazes de fazer. (DALGALARRONDO, 2006, p. 109). Resumindo, o medo é um mecanismo de defesa.

Qual a diferença entre ter medo e ter fobia de algo?

Samira: Medo não é patológico. As fobias sim. Um indivíduo fóbico vive sentimentos como angústia, culpa por ser incapaz, constrangimento, e desencadeiam reações corporais, ao ser exposto a seu objeto de fobia. Veja um exemplo: Um indivíduo pode ter medo de ser assaltado a passar por uma ruela pouco movimentada, e passar a evitá-la a fim de diminuir a probabilidade de ser assaltado.  Contudo, existe uma fobia chamada agorafobia que representa o medo de sair de casa, de entrar em lojas, multidões e lugares públicos ou de viajar sozinho em ônibus, trens e aviões. O medo é racional e preventivo, a fobia é algo que incapacita o indivíduo de racionalizar, aumentando a crença que sua fobia lhe oferece.

É possível raciocinar direito quando se está com medo?

Samira: Sim. As pessoas agem por esquemas mentais que, na maioria das vezes, são acionados automaticamente frente à situação de medo. Contudo, esse acionamento depende dos tipos de esquemas que a pessoa possui, e que emoções estão fluindo no momento. Quem não tem essa habilidade pode simplesmente paralisar e não conseguir emitir nenhum som ou agir, mesmo que a situação só requeira poucos movimentos ou simples grito de socorro.

Você diria que o medo dá asas à imaginação ou seria o contrário?

Samira: O ser humano tem uma capacidade cerebral de realizar infinitas conexões e possibilidades. Quando falamos de medo e imaginação, desencadeamos memórias, sensações visuais e auditivas, emoções que podem nos levar a imaginar coisas passando pela casa, vultos, escutar nosso nome quando não há ninguém em casa. O que ocorre é que nosso cérebro precisa dos esquemas mentais para agir nas mais diversas situações, e quando ele encontra-se em uma situação pessimista ou desagradável, é preciso julgar o que é melhor para sua sobrevivência. Desta forma, ele varre o “arquivo” que temos para formular a melhor teoria e sanar o problema. A ideia é imaginar o pior cenário com o qual ele irá lidar para que possa agir ou não.

Em filmes vemos muitas pessoas ficando paralisadas em determinadas cenas. Você poderia explicar como funciona mentalmente ou fisicamente a paralisia de medo?

Samira: O medo é um consumidor de energia. Isso é desencadeado a partir do reconhecimento do perigo (cognição), a pressão sanguínea aumenta, há o debito sanguíneo, aumento da ventilação pulmonar, redução da mobilidade e secreção intestinal e disponibilização de energia. A energia é para que uma reação ocorra, seja com a possibilidade de fuga ou ataque. Contudo, só após a interpretação do Sistema Nervoso Central, ocorre à manifestação do comportamento de sobrevivência, e isso pode levar horas. Após a injeção de adrenalina, o corpo pode sobrecarregar, e juntamente com a hiperventilação pulmonar, ele pode “desligar”. Um exemplo disso é o “piripaque” do Chaves ou aquela vez que você ficou imóvel ao ver um acidente grave no filme.

Outra coisa que vemos em muitos em filmes é a necessidade de checar algo em algum cômodo da casa ao invés de sair correndo após várias coisas macabras terem acontecido. É inerente do ser humano essa curiosidade mórbida?

Samira: Sim, a curiosidade mórbida é uma condição humana. Interessamo-nos por estes tipos de conteúdo devido à facilidade de projetar nossa agressividade e violência sem a culpa social. Funciona como um portal que projeta esses sentimentos negativos, porém não há regras ou julgamentos, o que aguça a imaginação e descarrega o “mal” que temos dentro de nós.

O cético de um filme de terror é outro que geralmente leva a pior simplesmente por não acreditar no sobrenatural que acontece ao seu redor. É tão difícil assim o ser humano conseguir sair de sua zona de conforto para abrir a mente e aceitar o inexplicável? Isso seria um mecanismo de defesa para manter a sanidade?

Samira: Abrir a mente para o inexplicável não é só uma questão de escolha. Envolve a cultura do indivíduo e o contexto que ele vive, pois o modo como nós interpretamos e compreendemos o inexplicável é que nos encaixa em algum padrão: os medrosos e os céticos. Manter a sanidade é algo que nos desafiamos todos os dias, não só em uma situação de medo. Os filmes de terror mexem com o nosso instinto de sobrevivência e imaginário, enviando mensagens de horror, mutilação, morte iminente e insegurança.

Atrelado a isso temos a convenção social que nos envia mensagens que devemos respeitar a existência do outro, tratar bem, sentirmos autoconfiança nas nossas decisões, e agir sempre que o outro precisar de nós. A mente quando combina essas premissas entra em estado de análise do problema, e dependendo do esquema mental que ela tenha, o indivíduo pode adotar uma postura cética e não ter medo, visto que a racionalização atendeu os padrões esperados; ou ter um medo incontrolável a ponto de urinar, vomitar ou desmaiar no local. Enfim, não aceitar o inexplicável é sim um mecanismo de defesa que apenas visa o bem-estar da sua mente, a fim de que ela não seja invadida por pensamentos ansiosos e perturbadores.

Quando um personagem finalmente acerta o monstro/psicopata e aparentemente o mata, muitos telespectadores urram para que finalize o vilão, atirando de novo ou continuando a matança, mas muitas vezes o herói não faz isso ou até mesmo larga a arma. Isso tem alguma coisa a ver com moralidade ou cansaço emocional?

Samira: Vamos definir o que é moralidade: é um conjunto dos princípios morais, individuais ou coletivos, tais como: fazer o bem, ser honesto, ajudar o outro, não mentir, não matar.  A ideia de prejudicar alguém, mesmo em legítima defesa, vai de encontro a esta premissa, fazendo com que o cérebro tenha uma sobrecarga emocional e moral. Não sei se o termo seria cansaço emocional, mas ao interpretar que o objeto que lhe causa mal foi extinto pelas suas mãos, pode causar uma confusão mental no herói. Findado o momento de tensão, ele percebe o que fez, e se abstém. No que tange os espectadores, ao se identificar com o herói, eles superestimam a situação, só que de um modo muito mais racional que a personagem que rodeada de emoções e intensas descargas de adrenalina. Além disso, os espectadores possuem seus próprios esquemas mentais de julgamento e justiça, o que leva a maioria a argumentar que o vilão merecia muito mais.

Ok, eu sei que essa não tem uma boa explicação, mas porque alguém iria querer se separar do grupo quando há coisas estranhas acontecendo naquele momento? Tem gente que realmente não consegue lidar com situações difíceis em grupo?

Samira: A ideia da separação do grupo é parte do enredo do filme, mas não é inverdade que as pessoas podem sim se sentir mais à vontade para pensar fora de um contexto grupal. O ser humano é um ser social em sua essência, porém existem necessidades básicas individuais que precisam ser supridas. O grupo, por sua vez, pode inibir o pensamento e ação de um indivíduo, desta forma alguns preferem o isolamento, a fim de melhor isolar o problema e racionalizar melhor sobre a solução.

Para finalizar, vamos analisar os produtores de filmes. Porque em muitos dos filmes de terror eles escolhem adolescentes para serem as vítimas e protagonistas? Há algum tipo de tentativa de educar as crianças através do medo?

Samira: Acredito que a escolha pelo público jovem é uma forma de atrair esse mesmo público, fazendo com que eles se identifiquem com as personagens. Além do fato que na adolescência a curiosidade humana é estimulada devido às descobertas e conflitos vivenciados pela fase de desenvolvimento. Filmes de terror apresentam em seu enredo o desconhecido, o impossível, e ter esse estímulo de forma visual chama muita atenção nessa fase.