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Os principais filmes nacionais esnobados pelo Oscar

Aquarius era a nossa melhor chance de, finalmente, trazer um Oscar para o Brasil

Por Carla Braga - 09 Nov 2016 às 11:36h

As indicações ao prêmio mais importante da indústria cinematográfica norte-americana, o Oscar, sempre geram inúmeras controvérsias. Seja porque os jurados da Academia persistem em favorecer produções, nas indicações e premiações, dominadas por um elenco e equipe técnica branca ou porque persistem em premiar os mesmos indicados ano após ano, evidenciando um certo favoritismo. Ou seja, inovação não é a especialidade desta premiação.

Se viramos nossa atenção para as produções nacionais, também fica evidente uma deficiência grave. Quando os filmes certos brasileiros conseguem sobreviver à lista e entram na seleta lista de indicados, eles quase nunca são premiados. Mas talvez a principal causa para isso seja o fato de, raramente, o longa brasileiro com mais potencial de um determinado ano ser, de fato, o escolhido para representar o Brasil na categoria de Filmes Internacionais, a exemplo do que aconteceu, neste ano, com Aquarius – aclamado filme de Kleber Mendonça Filho estrelado por Sônia Braga.

Como pretendemos ganhar um Oscar se continuamos esnobando as produções com maior potencial? Criamos, então, uma lista com os principais longas esnobados pelo Brasil na hora de selecionar o filme que nos representaria em um determinado ano no Oscar e com os filmes que conseguiram realizar a façanha de ser indicados e merecedores disso, mas foram esnobados e não receberam a premiação! Lembrando que listamos apenas os principais, já que a quantidade de exemplos é extensa.

Aquarius

Centro de uma grande controvérsia neste ano, Aquarius precisava abrir esta lista. Em maio deste ano, em meio à iminência do Impeachment de Dilma Rousseff, a equipe do filme realizou um protesto contra o Impeachment quando participou do tapete vermelho do Festival de Cannes, atraindo atenção (indesejada para a oposição na época) para a crise política que ocorria por aqui.

O resultado disso? Um boicote ao filme por parte do governo atual, que conseguiu afastar Dilma do poder e que, na hora de escolher a produção de Mendonça Filho para representar o Brasil no Oscar de 2017, decidiu ignorá-lo de forma vingativa e desprezar o fato de que a produção é a primeira brasileira em mais de uma década com grandes chances de levar o Oscar de Melhor Filme Internacional. Agora, não é mais.

Detalhe: A atriz Ingra Lyberato e o cineasta Guilherme Fiúza, dois dos nove especialistas escolhidos pela Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura para compor a comissão responsável por escolher o filme brasileiro que iria concorrer a uma vaga ao Oscar 2017, deixaram seus cargos em protesto ao boicote que Aquarius e outros filmes passaram durante a seleção das produções.

Cidade de Deus

Você sabe que um filme estrangeiro indicado em quatro categorias do Oscar (Melhor Direção, Roteiro Adaptado, Edição e Fotografia) tem chances grandes de levar, ao menos um, para casa. Mas nem assim o tão desejado Oscar para o Brasil aconteceu. Mas vale frisar ainda que a Academia havia ignorado a produção de Fernando Meirelles em 2003 quando ela foi a representante do Brasil para a categoria de Melhor Filme Estrangeiro – nem entrar na lista final de indicados o filme entrou. No entanto, a decisão de relançar o filme nos EUA no ano seguinte deu muito certo, o que acabou rendendo quatro indicações na versão de 2004 da premiação. Infelizmente, a obra-prima que é Cidade de Deus, um filme aclamado até hoje em dia lá fora, não levou nenhum Oscar e perpetuou o gelo que temos levado há quase um século da parte da Academia.

Boi Neon

Remando contra a maré, Boi Neon foi na decisão contrária e anunciou que não iria participar da seleção para o Oscar em solidariedade ao que aconteceu com Aquarius e contra declarações de um dos membros da comissão, que seleciona o representante nacional para a premiação! Olha só o comunicado oficial que a equipe emitiu:  

"Decidimos tornar pública a nossa decisão de não submeter o filme BOI NEON à comissão brasileira que indica o representante nacional ao OSCAR 2017. É lamentável que o Ministério da Cultura, por meio da Secretaria do Audiovisual, endosse na comissão de seleção um membro que se comportou de forma irresponsável e pouco profissional ao fazer declarações, sem apresentação de provas, contra a equipe do filme Aquarius, após o seu protesto no tapete vermelho de Cannes. Aquarius foi o único filme latino-americano na competição oficial de Cannes, tendo sido aclamado pela crítica internacional. Diante da gravidade da situação e contrários à criação de precedentes desta ordem, registramos nosso desconforto em participar de um processo seletivo de imparcialidade questionável".

Mesmo que Boi Neon tenha escolhido por conta própria ser esnobado pelo Oscar, é uma pena que a situação política do país tenha interferido tanto na seleção deste ano para Oscar, culminando no afastamento de uma produção nacional tão legal! Se Aquarius não foi escolhido como nosso representante, que ao menos Boi Neon, o segundo melhor filme nacional deste ano, tivesse sido.

O Pagador de Promessas

O primeiro filme brasileiro indicado ao Oscar, O Pagador de Promessas, de 1962, é um marco para o cinema brasileiro não só por isso, mas também por ser, até hoje, o único longa nacional a conquistar a Palma de Ouro do Festival de Cannes, um dos prêmios de cinema mais importantes do mundo e muito mais prestigiado e conceituado do que o próprio Oscar para a comunidade cinematográfica. Mas nem isso garantiu que a produção do cineasta Anselmo Duarte levasse, no ano seguinte, o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, pois ela acabou perdendo para o filme francês Sempre aos Domingos.

Carandiru

No mesmo ano em que Cidade de Deus recebeu quatro indicações ao Oscar, Carandiru não recebeu nenhuma; nem mesmo na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, em que Cidade de Deus não estava presente, ou seja, havia uma vaga para um filme nacional. De qualquer forma, Carandiru, filme de Hector Babenco lançado em 2003, que foi a escolha brasileira para representar o país no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro daquele ano, acabou sendo esnobado pela Academia e não entrou na lista final de indicados na categoria.

Central do Brasil

Central do Brasil, aclamado filme de Walter Sales, marcou a segunda indicação seguida ao Oscar para o Brasil, algo até e desde então inédito. O drama recebeu duas indicações da Academia, nas categorias Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz (para Fernanda Montenegro), e acabou perdendo nas duas. O filme perdeu para a obra-prima italiana A Vida é Bela, o que é compreensível, mas por que mesmo a Gwyneth Paltrow recebeu a estatueta de Melhor Atriz pelo seu trabalho em Shakespeare Apaixonado quando Montenegro entregou uma performance muito mais memorável e complexa? Essa é difícil de digerir até hoje em dia.  

Estômago

O filme brasileiro de 2007 foi indicado em catorze categorias no Grande Prêmio Vivo do Cinema Brasileiro, conhecido como o Oscar do cinema brasileiro, levou cinco prêmios para casa, incluindo o de Melhor Longa-Metragem. Infelizmente, isso tudo não garantiu que o longa fosse o representante brasileiro para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, já que O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias foi o escolhido e não sobreviveu para a lista final de indicados ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Uma pena, já que Estômago é uma produção bastante irreverente, inovadora e bem construída, que acabou sendo mais uma esnobada na nossa história.

O Sal da Terra

O documentário franco-ítalo brasileiro O Sal da Terra, de 2015, dirigido pelo aclamado e genial Wim Wenders (não há muitas palavras para descrever o quão incrível esse cineasta é) e por Juliano Salgado, filho do icônico e igualmente aclamado e genial fotógrafo Sebastião Salgado, foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Documentário, mas acabou perdendo para Citizenfour. É difícil descrever a beleza deste filme, que possui uma das fotografias mais lindas já criadas em um longa e uma história incrível focada na vida e trabalho de Salgado, mas, infelizmente, também não foi desta vez que o Brasil levou um Oscar para casa (neste caso, ele precisaria ser dividido com outros dois países).

Que Horas Ela Volta?

O nosso representante para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2016, Que Horas Ela Volta? deu o que falar por aqui e lá fora, mas nem isso garantiu que o filme de Anna Muylaert estrelado por Regina Casé conseguisse se manter na lista final dos indicados à premiação, frustrando as expectativas de quem torcia pela produção. Vale frisar que não conseguimos emplacar um longa nessa categoria desde 1999, quando Central do Brasil foi indicado tanto para Melhor Filme como para Melhor Atriz pelo trabalho de Fernanda Montenegro.

Menções honrosas: O Quatrilho; O Que é Isso, Companheiro?; Uma História de Futebol; O Menino e o Mundo – as outras quatro produções inteiramente brasileiras indicadas na história do Oscar!