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Exemplos de quando o remake hollywoodiano não estraga tudo

Por que às vezes, mas só às vezes, a nova versão faz justiça ao original

Por Carla Braga - 01 Dez 2016 às 12:00h

A onda de remakes e reboots que acomete Hollywood não é novidade para ninguém. A mania em repaginar ideias antigas para uma audiência mais jovem tem criado uma bolha no cinema norte-americano. O resultado disso? A falta de investimento em conceitos originais – vistos como riscos desnecessários geralmente pelos grandes produtores da indústria. Soma-se à bolha ainda o fato de que a maior parte do público estadunidense simplesmente não assiste a produções estrangeiras por causa das legendas; preguiça, comodismo e/ou egocentrismo? Seja qual for a razão, está enraizado em boa parte da população dos EUA que não vale à pena conferir um ótimo filme em outro idioma porque ele acabará sendo criado pela indústria do Tio Sam.

A preguiça, comodismo e/ou egocentrismo dos norte-americanos acaba não sendo algo ruim, no entanto, às vezes. Isso porque, apesar da maioria dos remakes e reboots estadunidenses de filmes estrangeiros não superaram os originais, alguns conseguem ser legais, chegando a ofuscar por completo a existência do seu antecessor; e são essas produções de qualidade dos EUA baseadas em filmes de outros países que entram nesta lista. É bem provável que você leve alguns sustos ao ler esta matéria ao descobrir que alguns filmes famosos são, de fato, cópias de outros, que você nem sabia da existência, mas que agora poderá checar e tirar a prova de qual é melhor (cópia ou original) por si mesmo.

Vanilla Sky (2001)

Você já deve ter ouvido falar de Vanilla Sky. Lançado em dezembro de 2001, o longa de Cameron Crowe completa quinze anos de existência neste mês e, desde o seu lançamento, tornou-se um cult no mundo inteiro mesmo não estando isento de imperfeições. O filme foi uma refilmagem de Abre Los Ojos, sci-fi de 1997 do chileno Alejandro Amenábar – hoje em dia, um cineasta prestigiado em Hollywood. De fato, não há comparações. O original é, de longe, melhor do que Vanilla Sky e passa sua mensagem de forma mais coerente. Mas isso não significa Vanilla Sky seja descartável. A produção de Crowe possui o seu valor por nos apresentar à mesma história com um visual mais elaborado e com uma trilha sonora linda e emocionante. Neste caso, é super válido ver as duas versões e fazer suas próprias avaliações.

Cães de Aluguel (1992)

Em nenhuma descrição de Cães de Aluguel é afirmado que ele, o filme que, sozinho, lançou a carreira de Quentin Tarantino em Hollywood, é um remake ou reboot. Mas os indícios de que ele foi uma chupada tensa de Perigo Extremo (1987), filme de Hong Kong de Ringo Lam, são alarmantes demais para serem ignorados quando o original é conferido. De qualquer forma, Cães de Aluguel foi assistido pela maior parte das pessoas como uma ideia original e é um dos melhores longas feitos nos anos 90 – com roteiro original ou não. As habilidades de Tarantino como cineasta não podem ser negadas e elevam a qualidade da história do Cães de Aluguel original e adicionam camadas irreverentes a ela.

A Noviça Rebelde (1959)

Um dos melhores musicais da história do cinema, A Noviça Rebelde é um remake também. Criado em uma época em que o fato de ser um remake ou reboot não era tão escancarado para a audiência assim, o musical estrelado por Julie Andrews ofuscou por completo a existência de Die Trapp-Familie (1956), drama cômico alemão que serviu como sua fonte de inspiração, na época. O longa alemão foi um sucesso no país e deu origem à peça da Broadway, que, por sua vez, ganhou filme em 1959. As tramas dos dois filmes são, praticamente, as mesmas, mas a versão norte-americana contém canções e coreografias, que são clássicos absolutos, com instalações da peça sendo criadas até hoje. Este é um caso em que ver o remake é mais divertido e relevante do que conferir o original.

Os Doze Macacos (1995)

Fica difícil comparar uma produção de alto orçamento de Hollywood com um curta-metragem independente francês dos anos 60, mas La jetée (1966) não deixa a desejar em relação a Os Doze Macacos. Considerado um dos marcos do Novelle Vague e um dos melhores curtas de todos os tempos, a produção francesa acabou inspirando o excelente longa de Terry Gilliam quase três décadas depois do seu lançamento. O cerne da ideia original (um homem mandado de volta no tempo em um mundo devastado por uma guerra) está presente, mas Os Doze Macacos criou um universo só seu repleto de acontecimentos e personagens memoráveis – principalmente o de Brad Pitt – e é uma das melhores ficções científicas lançadas na década de 90.

Quanto mais Quente Melhor (1959)

Considerada uma das melhores comédias de todos os tempos e progressista para época por conter homens vestidos de mulheres e flertar com a ideia de homossexualidade, Quanto mais Quente Melhor é um remake de outros dois filmes! O roteiro do longa estrelado por Marilyn Monroe foi escrito por Billie Wilder e baseado na história de Fanfare of Love, comédia francesa de 1935, mas, como Wilder não conseguiu encontrar o script original do longa francês, acabou utilizando o roteiro de Fanfaren der Liebe – remake alemão de 1951 da comédia francesa. O resultado deu origem a uma produção relevante até os dias atuais, que possui atuações, danças, diálogos e figurinos super legais.

Perfume de Mulher (1992)

Perfume de Mulher, drama que garantiu o primeiro Oscar da carreira de Al Pacino após ele ter sido indicado outras sete vezes e perdido, é um remake da comédia italiana Perfume de Mulher (1974), que possui o mesmo nome do seu remake no Brasil e que adaptou para os cinemas uma história de Giovanni Arpino. Na época em que o remake estrelado por Al Pacino chegou aos cinemas, recebeu críticas mixas, com a atuação do ator sendo o seu ponto alto e elogiada por todos.

O Chamado (2002)

A gente sabe que O Chamado não é o melhor filme de terror de todos os tempos, mas ele foi um sucesso tão astronômico quando chegou aos cinemas em 2002 que, por algum tempo, ninguém lembrou que o longa estadunidense era um remake de Ringu, terror japonês de 1998. Enquanto a versão estadunidense mantém bem o estilo de terror nipônico e foi vista por milhões de pessoas no mundo inteiro, a experiência de ver o original é bem mais aterrorizante e bizarra. É válido conferir as duas e notar como Hollywood costuma aliviar o seu conteúdo, o que não torna, necessariamente, a produção norte-americana descartável.

Sete Homens e um Destino (1960)

Akira Kurosawa – um dos cineastas mais importantes do Japão e da história do cinema como um todo – criou 31 filmes ao longo da sua carreira, e 16 deles fazem parte da renomada The Criterion Collection, o que implica que um em cada dois filmes que ele fez é considerado uma das maiores conquistas da história cinematográfica. Imagine então fazer um remake de uma produção dele. Foi isso que Sete Homens e um Destino (1960) ousou fazer ao criar um remake de Os Sete Samurais (1954) e, por incrível que pareça, não fez feio. Sete Homens e um Destino reuniu alguns dos atores mais importantes da sua época e cada um deles criou um universo único para o seu personagem – do mesmo jeito que Os Sete Samurais de Kurosawa fez.

Insônia (2002)

Insônia, criado pelo renomado Christopher Nolan, segue um policial que cometeu um erro grave, o que não é uma história muito original ainda mais porque a produção é um remake do também Insônia, filme norueguês lançado em 1997. De todo jeito, Nolan consegue elevar a qualidade da produção com seus talentos como cineasta e o filme conta não só com Al Pacino, mas também Robin Williams – ambos entregando performances memoráveis.

Os Infiltrados (2006)

Os Infiltrados, um conto trágico de vingança e morte estrelado de forma sublime por Jack Nicholson, Leonardo DiCaprio, Matt Damon e outros, é também um remake que supera o seu original, Conflitos Internos, longa lançado em Hong Kong em 2002. Mas como competir com uma das melhores obras de Martin Scorsese, um cineasta que possui uma filmografia extremamente diversa e respeitável?

O Retorno do Talentoso Ripley (2002)

É complicado mexer com certos nomes, e Win Wenders é um deles. O talentoso diretor alemão adaptou um livro de Patricia Highsmith e deu origem ao filme O Amigo Americano em 1977, e claro que Hollywood decidiu criar uma versão para si mesma. O Retorno do Talentoso Ripley chegou então aos cinemas norte-americanos em 2002 e, como parece ser uma tendência em remakes norte-americanos, eleva-se em um aspecto em particular: a atuação do seu protagonista. Todos podem concordar que John Malkovich é um dos melhores atores da sua geração, e ele entrega uma das suas atuações mais memoráveis, mas como competir com a genialidade de um diretor como Wendes? As duas produções são excelentes e conseguem coexistir harmonicamente, mas Wendes é Wendes. 

Menções honrosas: True Lies (1994); A Gaiola das Loucas (1996); Deixe-me Entrar (2010); A Grande Mentira (2010); Entre Irmãos (2009); Entrevista (2007) Violência Gratuita (2007).