X

The OA | Crítica

Nova série da Netflix vislumbra a genialidade, mas falha ao entregar premissa

Por Carla Braga - 16 Dez 2016 às 20:29h

Alguns meses atrás a Netflix nos entregou Stranger Things, série de ficção científica e suspense que pegou todos de surpresa com a sua qualidade. Então, a notícia de que uma nova produção de sci-fi original do serviço de streaming chegaria em breve deixou os fãs dos dois gêneros, eu inclusa, bastante animados. Ainda mais pelo projeto envolver o nome de Brit Marling, mente por trás de filmes como o cultuado A Outra Terra (2012). Infelizmente, com a chegada de The OA nesta sexta (16), pode-se dizer que a atriz, roteirista e produtora ainda vive sob a sombra do seu sucesso de 2012.

A princípio,The OA não faz o menor sentido, quebrando inúmeras expectativas em relação ao o que achávamos que seria, mas consegue ser cativante de todo jeito. Somos apresentados à personagem de Marling, uma mulher chamada Prairie Johnson, que, ao ressurgir após sete anos de desaparecimento, responde pelo nome OA, voltou a enxergar e se nega a falar sobre o que passou durante esse período; a não ser para um grupo bastante heterogêneo de cinco pessoas. O mistério em relação às experiências da protagonista durante a sua abdução é o principal combustível do ótimo piloto da série, chamado Homecoming, mas os episódios seguintes se desenrolam aos solavancos.

The OA toma uma iniciativa diferente, posicionando Prairie como narradora da sua história logo de início e quebrando a expectativa de que veríamos um suspense obscuro em volta da personagem à medida que ela seria atormentada pelos seus fantasmas do passado. Na realidade, a série molda-se em torno de uma história de cativeiro e nos revela, através dos relatos da protagonista, como foram os sete anos dela como prisioneira.

Infelizmente, a trama do aprisionamento da protagonista arrasta-se por demais episódios, já que a personagem tinha uma longa história para narrar, e cria uma expectativa maior do que prova conseguir lidar em relação a como será a fuga da personagem. Por outro lado, introduz elementos bastante intrigantes e até revigorantes para uma história de ficção científica. A produção está longe de ser perfeita, mas definitivamente não se encaixa no senso comum do gênero.

Mas esses aspectos peculiares também provam ser o calcanhar de Aquiles do programa. Tanto a série como a personagem soam clementes demais e absurdamente vagas. O tom da narrativa consegue nos alienar, deixando-nos no escuro muitas vezes, o que requer boas habilidades de escrita, mas seria mais fácil suspender nossa descrença e imergir nos relatos da protagonista se ela não decidisse por demasiada vezes seguir por caminhos de narrativa tão ridículos. Combater violência através de uma dança? Comer um animal para ganhar força espiritual? É difícil levar a mitologia de The OA sério.

Mesmo assim, é difícil também descartar a série cocriada por Marling e Zal Batmanglij e categorizá-la como ruim. The OA é muito bem realizada tecnicamente. Batmanglij dirige cada episódio com uma elegância tão elevada, e o local do aprisionamento da protagonista é resultado de um trabalho de set massivo e impecável. A atuação de Marling é memorável e em sintonia com a personagem, afinal, a atriz a escreveu, e responsável, muitas vezes, por nos ajudar a não invalidar os elementos fantásticos da história de uma só vez.

Como acontece na maior parte das fábulas, o cerne da história de The OA é uma jornada obscura de sofrimento com pitadas de magia, mitologia e amor - claro. A forma como esses elementos são abordados pode ser vaga e um pouco difícil de ser tragada, e a série demanda que deixemos nossa racionalidade de lado rápido demais para a substituirmos por fatores como sentimento e intuição. Mas o âmago da produção é absurdamente interessante e poético para, simplesmente, descartamos a produção. O seriado de Marling e Batmanglij é ambicioso demais e deixa muito escapar de suas mãos, mas merece ser conferido por aqueles que se questionam sobre o que existe além da escuridão.


8

Ótimo

Prós
  • A série foge dos estereótipos do gênero sci-fi e, como um todo, é uma produção única
  • Brit Marling nos convence na pele de Prairie e sustenta a mitologia da série nas costas muitas vezes
  • O cerne da trama é interessante e poético
Contras
  • A narrativa fica um pouco arrastada em mais de um episódio
  • Alguns dos efeitos especiais são visualmente estranhos
  • A história falha em nos convencer da maior parte dos seus elementos fantásticos
Antes de Watchmen: Espectral
Antes de Watchmen: Espectral
Antes de Watchmen: Espectral
Críticas