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Porque não devemos defender artistas como Vin Diesel

Em certos casos, apoiar as atitudes errôneas dos nossos ídolos é imperdoável

Por Carla Braga - 27 Dez 2016 às 16:49h

Se você entra, pelo menos um pouquinho, na Internet, ficou sabendo da polêmica relacionada à entrevista de Carol Moreira com Vin Diesel. A brasileira foi a única youtuber que conseguiu uma entrevista de 10 minutos com o astro de Hollywood quando ele passou pelo Brasil para promover xXx: Reativado, o mais recente filme da franquia Triplo X, e havia preparado uma série de perguntas interessantes relacionadas à longa carreira dele, mas teve sua entrevista interrompida três vezes pelo seu entrevistado, que estava obcecado por outro assunto: a aparência da sua entrevistadora. Se você ainda não viu a entrevista, olha só:

Visivelmente constrangida, a youtuber e cineasta gravou uma introdução para o vídeo da entrevista, em que explica que ficou bastante desconfortável com as investidas do ator e que não soube lidar muito bem com a situação na hora. Rapidamente, o vídeo viralizou online. Carol não chegou a pedir que o ator parasse de falar que ela era linda ou que estava apaixonado, mas, sutilmente, persistiu no tema da sua última pergunta para guiar Diesel de volta aos assuntos relevantes. Infelizmente, a forma como a youtuber lidou com o caso não foi o bastante para muitas pessoas, que não vacilaram em xingá-la ou criticá-la nas redes sociais.

Ações antigas de Carol foram apontadas em muitos comentários nas redes sociais para invalidar as reclamações dela em relação à atitude equivocada de Diesel, como o fato dela ter topado sentar no colo de Jason Momoa em um painel ao vivo ou ter brincado no Twitter que queria passar vaselina no Shogun, o que só evidencia a mentalidade machista impregnada na maior parte dos brasileiros – independentemente de gênero –, que julgam por instinto os comportamentos das mulheres, esquecendo os dos homens.

Como a própria Carol apontou em um comunicado oficial sobre o assunto, Momoa, em nenhum momento, interrompeu o trabalho dela para falar sobre a aparência de ninguém e perguntou se ela topava sentar no colo dele como parte de uma brincadeira, algo que ela tinha todo direito de aceitar ou recusar, já que pode sentar no colo de quem bem entender. Quanto à piada sobre a vaselina, é preciso mesmo argumentar? Carol fez uma brincadeira nas redes sociais e nunca o interrompeu no ringue durante uma luta para passar vaselina nele.

A pressão em cima de Carol foi tanta que nem se sentir confortável para falar o óbvio, que foi assediada no seu ambiente de trabalho, ela se sentiu. Mas ela foi sim, apesar de Diesel e muitas outras pessoas duvidarem. O ator, inclusive, mandou um pedido de desculpas bem meia boca online: “Como todos sabem, tento fazer com que minhas entrevistas sejam brincalhonas e divertidas, especialmente, quando estou na zona ‘Xander’ [seu personagem no filme xXx: Reativado]… Mas, se ofendi alguém, então gostaria de me desculpar, pois essa nunca é minha intenção”. A questão não é SE ele ofendeu alguém, já que Carol deixou claro que ficou ofendida, e em nenhum momento o ator reconheceu que errou. Um comportamento, que invalida a opinião feminina, bem típico vindo de um homem branco, hétero e rico. Não?

O mais interessante nisso tudo é que muitas pessoas, que o defenderam, esqueceram que ele é um homem comprometido, já que namora há quase uma década com a modelo Paloma Jimenez, com quem tem três filhos. Diesel está errado de qualquer forma por ter criado uma situação constrangedora e tosca, que, no mínimo, beira o assédio, mas o fato dele ser comprometido só o torna ainda mais equivocado nesta história por agir como se fosse solteiro, mesmo não o sendo.

O comportamento do ator de Triplo X, infelizmente, não é algo isolado e pontual. Existem muitas celebridades, em maioria masculinas, que, por viverem rodeados por privilégios e regalias, acreditam ser superiores a leis, normas ou convenções da sociedade. Essa noção alterada pela fama somada ao machismo ainda existente no mundo inteiro já deu  margem para muitas situações parecidas como a de Carol. A mais conhecida por aqui é a infame entrevista que Bruna Lombardi fez com Bon Jovi, em que, após uma série de respostas evasivas e monossilábicas, o músico fala que adoraria gastar muito dinheiro para manter uma mulher como ela ao perceber sua entrevistadora séria e insatisfeita com as respostas dele. Uma tentativa clara de invalidar o trabalho da brasileira com uma atitude paternalista. Vergonha alheia dele, né? Olha só:

Neste caso, Lombardi foi rápida em cortar os comentários sexistas e impróprios para o contexto, mas a própria jornalista reconhece que nem toda mulher conseguiria reagir da mesma forma. “Consegui responder o Jon Bon Jovi porque sou uma mulher empoderada, segura de mim mesma. O que desejo é que todas as mulheres também possam se sentir dessa maneira e revidar todos os tipos de assédio. As mulheres merecem respeito, mas também não podemos generalizar. Às vezes, um elogio é apenas um elogio”, falou mais recentemente Lombardi.

A triste verdade é que jornalistas mulheres estão suscetíveis as mais variadas formas de assédio. O Instituto Internacional de Segurança nas Notícias e a Fundação Internacional da Mídia da Mulher já divulgaram um relatório, que afirma que 64% das jornalistas femininas do mundo inteiro já reportaram ter experimentado “intimidação, ameaças ou abuso” enquanto trabalhavam – eu inclusa. Quando envolvemos celebridades milionárias, a situação apenas ganha maior proporção e repercussão internacional.

O caso de Diesel com Carol, por exemplo, foi reportado e criticado negativamente por inúmeros sites de renome internacionais, como o respeitado Huffington Post, o Daily Mail, The Wrap, a revista Elle e outros, que usaram palavras como assédio e constrangedor para descrever o caso. Por que será então que muitos de nós, brasileiros, fomos tão rápidos em julgar a youtuber como oportunista ou palavras ainda mais baixas direcionadas para o comportamento sexual dela? Talvez precisemos voltar nossos olhos para o comportamento mais progressista da mídia de outros países neste caso.

Mesmo assim, eu gosto de pensar que vivemos em uma época da história transgressora para o feminismo e, logo, para a forma como a mulher é enxergada em nossa sociedade. Minha avó, assim como sua provavelmente, precisou ouvir, ao longo de toda sua carreira (se ela tiver conseguido ter uma), comentários infelizes sobre sua aparência (aparentemente bonita demais para uma mulher inteligente) e assumir que eles eram apenas elogios. Mas eles não são não, e hoje sabemos muito bem disso por mais que alguns ainda tentem fechar os olhos para isso.

O caso de Carol ter repercutido ao favor dela em maioria é um avanço e tanto. Sinal de que, finalmente, mães e pais estão começando a criar os seus filhos de forma diferente. Quando menina, para ser e falar o que bem entender, sem se preocupar se será taxada como vadia e afins, e acreditar no seu potencial como indivíduo. Quando menino, o que acabou de ser mencionado sempre esteve em suas criações, mas agora um detalhe está sendo inserido: respeitar e tratar como igual qualquer pessoa, seja ela homem ou mulher, pobre ou rico, negro ou branco e por aí vai. Um detalhe tão pequeno, mas que, quando empregado em massa, impedirá que casos de assédio e homens como Vin Diesel sejam tão corriqueiros e aceitados pela sociedade como ainda acontece hoje em dia.