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Por que Hollywood está apostando em sequências de filmes antigos?

Estudamos fenômeno que tem acontecido na indústria norte-americana recentemente

Por Carla Braga - 15 Fev 2017 às 16:55h

Continuações. Elas existem em Hollywood há mais de cem anos desde quando The Fall of a Nation (1916) foi lançada para dar continuidade à história iniciada em O Nascimento de Uma Nação (1915) – ambas produções de D. W. Griffith. Mas a febre das sequências só acometeu mesmo o modelo de cinema estadunidense décadas depois quando O Poderoso Chefão Parte II (1974) levou o Oscar de Melhor Filme e O Império Contra-Ataca (1980) arrecadou valores impressionáveis até mesmo para os dias atuais (US$ 450 milhões no mundo inteiro em um único ano).

Dá década de 70 até os dias atuais, a tendência de criar continuações para um filme bem-sucedido apenas se intensificou. Gastar milhões em uma franquia já conhecida e bem recebida pelo público é muito mais seguro do que fazer o mesmo com um universo inédito. Logo, hoje em dia, se uma produção fizer sucesso nas bilheterias (mesmo que seja detonada pela crítica), é praticamente garantido que ela receberá pelo menos mais uma instalação.

Curiosamente, de acordo com o LinkedIn, um quarto das grandes sequências lançadas em 2016 chegou pelo menos após uma década da estreia da sua produção original, como O Bebê de Bridget Jones, terceiro filme da franquia que estreou doze anos depois da segunda instalação dela, Casamento Grego 2, que deu continuidade a uma história iniciada treze anos antes, e Trainspotting 2, que chegou ao Brasil nesta semana com um gap de vinte anos em relação ao primeiro título. Ainda mais curioso é atentar para o fato de que o número dessas continuações tardias cresce a cada ano. Mas por que isso acontece?

As razões para as continuações tardias

O investimento crescente em sequências para filmes antigos indica, acima de tudo, que os estúdios hollywoodianos estão com dificuldades em encontrar ideias novas merecedoras de grandes orçamentos e que enxergam continuações cada vez mais como bons investimentos – mas isso não é novidade para ninguém ligado na cultura pop.

Um olhar mais minucioso na situação percebe que as insuficientes ideias originais, que conseguem passar pelos filtros dos produtores da indústria norte-americana, não dão conta da cada vez maior demanda por continuações. A cada nova sequência, despedaça-se o âmago de uma história em busca de novos detalhes a serem retratados. História esta que vai ficando menos interessante (e muitas vezes menos coerente também) para o público, ao mesmo tempo em que maiores orçamentos são desprendidos para colocá-las em prática.

Uma análise ainda mais aprofundada nota também que, em geral, a primeira continuação de uma série de filmes arrecada mais lucros do que a produção original. Porém, a segunda sequência tende a ganhar menos do que a primeira, a terceira menos do que a segunda e assim por diante (veja uma tabela sobre o assunto aqui). Enquanto isso, reboots lucram, geralmente, mais do que os seus antecessores. Como não dá (por várias questões, timing sendo talvez a principal delas) para dar um reboot em todas as franquias de Hollywood, por mais que seus produtores desejassem o contrário, surge a ideia de resgatar uma antiga produção querida pelo público e criar uma primeira (a mais rentável, lembra?) continuação para ela.

Às vezes, essa sequência tardia é aguardada há décadas pelo público, mas às vezes não. Com isso, não quero dizer que não exista audiência para o segundo caso, mas sim que certas histórias foram idealizadas para serem isoladas. Únicas. Enquanto que outras possuem escopo para serem retocadas, graças aos seus finais sugestivos, material de inspiração à disposição ou uma curiosidade válida sobre o que os seus protagonistas estariam fazendo anos depois, por exemplo, como acontece com Distrito 9, O Guia do Mochileiro das Galáxias e Os Fantasmas se Divertem – três produções que possuem vários fãs reivindicando por continuações.

Também existem os casos de produções únicas e clássicas que estavam devidamente fechadas, e isso era completamente aceitável para o público, mas que criaram a ideia de que os fãs precisavam de uma sequência quando boatos sobre um novo título surgiram online, como Blade Runner 2049, que chegará ainda neste ano – neste caso, não estou reclamando nenhum pouco!

Essa onda de resgatar títulos décadas depois dos seus lançamentos também atingiu o modelo televisivo, dando esperança para os fãs de produções acabadas prematuramente de verem novos episódios delas, como Firefly, Freaks and Geeks e Twin Peaks (esta aqui já está com nova temporada confirmada para este ano). Mas também existem os casos de séries, que tiveram seus devidos finais, ressurgidas das cinzas para a angustia ou felicidade da audiência, como já aconteceu com Gilmore Girls, Três é Demais, Arquivo X e irá acontecer em breve com Prison Break.

Como equilíbrio é a chave para muitas problemáticas nesta vida, a saída ideal para o montante de sequências tardias não seria deixar de realizá-las, mas dosar a mão na hora de criá-las. Nem sempre existe uma justificativa plausível artisticamente para a existência delas, deixando claro que chegarão apenas para fins lucrativos (detalhe: mesmo quando sequências fazem menos dinheiro do que os seus antecessores elas ainda conseguem lucrar muito mais do que uma produção regular). E não existe nada mais desmotivador para um fã do que saber que o seu tão amado filme ou série voltará sem se preocupar em fazer justiça ao seu universo original.