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Melhores e piores filmes acometidos pela Síndrome do Forasteiro

Aquela velha história do forasteiro renegando seu povo e escolhendo um novo

Por Carla Braga - 22 Fev 2017 às 16:55h

A chegada de A Grande Muralha aos cinemas brasileiros, filme de aventura em que o personagem de Matt Damon vive um forasteiro envolvido com a defesa da famosa muralha da China durante a Dinastia Sung, lembrou-nos de como Hollywood costuma colocar atores brancos em papéis de líderes forasteiros de causas que não são suas originalmente, os famosos Mighty Whitey (Poderoso Branco em uma tradução livre)!

Se o conceito ainda não estiver claro, é só pensar na animação Pocahontas, em que John Smith se apaixona pela protagonista e decide lutar contra o seu povo para defender a tribo dela. Algumas dessas produções conseguem ser legais, apesar da falsa ideia de que se necessita de uma pessoa branca para liderar um movimento que não é seu, mas outras erram seus alvos em cheio. Descubra quais longas se enquadram em cada uma das duas categorias logo abaixo.

Os legais

1. Lawrence da Arábia

O clássico dos anos 60 Lawrence da Arábia é elogiado até hoje, mas a sua premissa, um oficial norte-americano branco consegue a incrível façanha de unir e liderar as diversas tribos árabes durante a Primeira Guerra Mundial para lutar contra os turcos, soa um pouco absurda para os dias atuais. Como produção épica e histórica, o filme é um tesouro para o cinema estadunidense, mas o fato de ter romantizado demais o seu protagonista, assim como alguns acontecimentos reais, escancara a tentativa hollywoodiana de pintar os EUA como os salvadores do mundo.

2. O Último dos Moicanos

Com um título que já sugere a presença de um herói, que deverá salvar tudo, O Último dos Moicanos coloca Daniel Day Lewis na pele de um moicano adotado, que se envolve pela filha de um oficial britânico vivida por Madeleine Stowe. O casal se apaixona apesar da Guerra Franco-Indígena estar rolando, e a trama romântica do longa consegue ser tão forte quanto as cenas de batalha. Além disso, o fato do protagonista branco ter sido criado como um indígena diminui o raio Mighty Whitey nele.

3. Histórias Cruzadas

Apesar do salvador branco ser geralmente um homem, alguns filmes apresentam uma salvadora, mas com uma roupagem diferente, mais humanizada e sensível. Este é o caso de Histórias Cruzadas, em que a personagem de Emma Stone fica indignada com a forma como as mulheres negras são tratadas na comunidade onde vive. Ela detalha então a luta dessas pessoas em um livro e se torna referência para o movimento dos direitos civis locais, conquistando melhorias que, em tese, não teriam sido obtidas sem uma face branca como líder e salvadora. Com atuações e personagens marcantes, o longa consegue tocar quase todos que o assistem e é um ótimo exemplo de que a Síndrome do Forasteiro pode ser bem aplicada as vezes.

4. Gran Torino

O aclamado Gran Torino, estrelado e dirigido por Clint Eastwood, foca na vida de um ex-militar viúvo e com câncer que tem sua vida mudada quando se aproxima de uma família chinesa, os Vang Lor. Ele passa a ser o grande defensor deles, impedindo que um dos filhos da família entre para uma gangue de criminoso, e chega a tomar medidas radicais para garantir a segurança da família, que, segundo a visão de Eastwood, não conseguiria se defender sozinha pelo visto. De todo jeito, a direção e atuação do veterano ator elevam a qualidade da história.

5. O Sol é Para Todos

Considerado um dos melhores filmes já feitos na história do cinema, O Sol é Para Todos, lançado em 1962,é também um dos primeiros exemplos de filmes hollywoodianos com um salvador branco. O longa foi fundamental em uma fase da história em que a segregação social entre brancos e negros havia acabado apenas há alguns anos em certos estados dos Estados Unidos. Então, apresentar um homem branco como defensor da comunidade negra foi extremamente importante para a época. A trama segue um advogado respeitado, que defende um jovem negro de uma acusação de estupro e, por consequência, acompanha a cidade se voltar contra ele mesmo quando a inocência do garoto está clara para todos. Neste contexto, o jovem negro realmente precisava de um salvador branco.

Os ruins:

1. Avatar

Avatar, ficção científica de James Cameron, possui um trabalho fenomenal de captura de movimentos e visuais lindos para o planeta Pandora. Mas, desde o seu lançamento, sofreu inúmeras acusações sérias de plágio. Uma das produções com quem se assemelha é Pocahontas, apresentando a mesma ameaça branca, que tentará dominar os ‘selvagens” e destruir o meio ambiente, uma figura masculina alheia ao habitat natural da protagonista, um interesse amoroso entre os dois e, claro, a personagem decidindo ficar ao lado do forasteiro no final. Como aventura, ele é bem divertido, mas é um ótimo exemplo de como a Síndrome do Forasteiro pode ser desnecessária e batida para os dias atuais.

2. Mentes Perigosas

Em praticamente todos os sentidos, Mentes Perigosas soa como uma interpretação forasteira da educação de baixa renda. Com uma plot que foca em uma professora branca, que inspira uma classe cheia de jovens do gueto não privilegiados com suas técnicas de educação, o filme apresenta os alunos de forma estereotipada, incluindo a adolescente grávida e o delinquente com coração de ouro, peca em não passar legitimidade à história e soa como uma tentativa falha de pintar a personagem de Michelle Pfeiffer como a salvadora daqueles garotos pobres.  

3. O Último Samurai

O filme épico histórico O Último Samurai está na sessão dos filmes ruins com Síndrome do Forasteiro porque, assim como Avatar, não possui elementos singulares o bastante para nos fazer esquecer de que é uma cópia de Pocahontas. Com o arquétipo de salvador branco, que deixa para trás o mundo Ocidental para liderar um grupo de etnia diferente da sua, o filme estrelado por Tom Cruise nos apresenta a um veterano da guerra civil norte-americano que aprende a respeitar a cultura japonesa e precisa escolher, no final, de que lado ficará sem antes entregar uma série de sequências clichês e dramáticas demais para o gênero.

4. Os Boinas Verdes

Recheado de clichês, termos racistas e moldes de cinema extremamente datados, Os Boinas Verdes tenta narrar a trama de um comandante das Forças Especiais do exército dos Estados Unidos, vivido por John Wayne, que acaba mudando de lado, renegando seu país de origem e lutando pela população do sul do Vietnã.

5. A Cidade Da Esperança

Protagonizado por Patrick Swayze, o drama meloso e cheio de estigmas pré-estabelecidos sobre a Índia. A Cidade Da Esperança nos apresenta a um médico branco, que viaja até o país à procura de iluminação na vida. Ele acaba montando uma clínica para atender a comunidade pobre local e, apesar de não querer ficar lá de forma definitiva, decide permanecer mais tempo para continuar salvando as vidas dos locais.