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As origens mais bizarras de 11 animações da Disney

É chocante perceber que filmes tão otimistas possuem inspirações tão macabras

Por Carla Braga - 14 Mar 2017 às 16:55h

Nos últimos anos, as verdadeiras origens por trás das histórias das animações clássicas e positivas da Disney têm ganhado a luz do dia. A maioria delas são extremamente bizarras, dramáticas e perturbadoras até, o que justifica o estúdio ter modificado suas tramas para atingir (e não traumatizar) o público infantil. Mas não teria sido legal conferir essas animações tão bem-feitas e icônicas com elementos mais pesados quando adultos? A ideia fica apenas no ar, mas logo abaixo seguem os detalhes mais estranhos e pesados sobre essas histórias – algumas inspiradas em fatos reais, outras criadas por mentes muito, muito perturbadas.

A Bela e a Fera

A animação de 1991 ganha uma versão em live-action da Disney ainda nesta semana, que promete dar uma roupagem mais atual para a história – com uma protagonista empoderada e um personagem gay, por exemplo. No texto criado originalmente por Gabrielle-Suzanne Barbot de Villeneuve, Bela convence a Fera a deixá-la visitar suas irmãs por uma semana, mas, quando elas veem a protagonista coberta por joias e escutam as histórias dela sobre uma vida luxuosa, convencem Bela a ficar um pouco mais, no intuito de que o atraso irrite a Fera e faça com que a criatura devore a protagonista na raiva. Por mais que a animação não tenha inserido esse elemento, ambas as versões beiram o limiar da Síndrome de Estocolmo, que se desenvolve a partir de tentativas da vítima de se identificar com seu raptor ou de conquistar a simpatia do sequestrador. Bizarro no mínimo.

Pocahontas

Pocahontas, uma clássica história de amor entre duas pessoas, que deveriam ser inimigas. Pelo menos, é isso o que a animação de 1995 da Disney tenta vender. A história real é mais politizada e menos romantizada. Pouco se sabe sobre a memorável nativo-americana, que se chamava Amonute e Matoaka (para os mais próximos), e tinha o apelido de Pocahontas. Segundo a cultura nativo-americana, ela nunca salvou a vida de John Smith, tão pouco o conhecia bem. A cerimônia, que Smith descreveu como de quase morte, teria sido uma de iniciação e de boas-vindas – a vida dele nunca esteve em perigo, e Pocahontas provavelmente não participou do evento porque crianças não podiam atender a rituais religiosos (ela tinha de dez a onze anos na época).

Pocahontas acabou sendo sequestrada pelo exército britânico anos depois, estuprada e dando luz a uma criança, chamada Thomas, antes de ter se casado por volta dos dezoito anos com o inglês John Rolfe, que usou a ligação matrimonial para obter ajuda de uma tribo para a sua cultura de tabaco. Pocahontas acabou morrendo aos 21 anos de uma doença misteriosa a caminho da Virgínia e sem nunca ter visto seus familiares novamente.

A Pequena Sereia

A pequena Ariel, filha do Rei do Mar, troca sua voz por um par de pernas em um acordo com uma bruxa má e vai até a superfície à procura do amor da sua vida – uma história deturpada por si só contada pela animação da Disney. Mas a trama original da Pequena Sereia, escrita por Hans Christian Andersen, ainda consegue ser bem pior. No livro, a protagonista morrerá se não conseguir fazer o príncipe se apaixonar por ela, suas pernas doem o tempo todo, como se estivesse andando em cima de pedaços de vidro, como ela não pode falar, não consegue impedir que o príncipe se case com outra pessoa e acaba morrendo e se transformando em espuma do mar.

Pinóquio

Pinóquio nunca se tornou um menino de verdade na vida real – pasmem! A história do boneco de madeira não vem de uma lenda urbana ou conto de fada, mas sim do livro As Aventuras de Pinóquio, do italiano Carlo Collodi. O Pinóquio da animação da Disney pode ser um pouco traquina e até malvado, mas, na história original, ele é um saco. No livro, o personagem mata um grilo falante, queima os próprios pés e faz com que Gepeto seja preso. Ele acaba sendo enforcado também pelo gato e pela raposa em uma árvore, mas escapa apenas para ser jogado na cadeia em seguida.

Hércules

O semideus filho de Zeus, que acaba se tornando um herói e salvando Megara das garras de Hades na animação clássica de 1997, foi – apenas – um selvagem, assassino, estuprador e genocida envenenado pela própria mãe na mitologia grega, que era evidentemente mais complacente com esses horrores. Na mitologia, Hércules é de fato filho de Zeus, mas, como Hera o odiava por ser um filho ilegítimo do seu marido, amaldiçoou-o a enlouquecer e assassinar a sua esposa Megara e filhos – mas vale frisar que Megara, filha do Rei de Thebas, foi praticamente tomada a força por Hércules antes mesmo da maldição, que poderia justificar o comportamento dele.

Cinderela

Originalmente publicada (apesar de existirem controvérsias sobre o assunto) por Giambattista Basile e baseada em contos populares, a história de Cinderela foi reescrita por Charles Perrault – versão que inspirou o filme clássico da Disney. Mas os irmãos Grimm também contaram a sua versão. Na interpretação deles, a protagonista perde um sapato, levando o príncipe a uma saga para achar o seu amor verdadeiro, mas a animação acabou deixando de lado o detalhe de que uma das irmãs má dela chega a cortar os dedos dos próprios pés, enquanto que a outra remove o calcanhar; ambas no intuito de fazerem seus pés caberem no salto alto. As duas ainda acabam tendo os seus olhos arrancados por aves como forma de punição. Ainda existe outra versão da história que narra Cinderela assassinando a sua madrasta para que seu pai se case com uma governante.

Mogli – O Menino Lobo

Tente por um segundo imaginar o inocente e adorável Mogli, da animação de 1967, como um genocida. Impossível, né? Mas é isso mesmo que ele é em O Livro da Selva, de Rudyard Kipling. Após matar o tigre Shere Khan, Mogli descobre que seus pais biológicos foram capturados por um vilarejo de fazendeiros. Com a ajuda de lobos e elefantes, ele não só destrói a vila como assassina os seus habitantes – algo que pode parecer justificável para os de moral mais flexível, mas que ainda se enquadra na definição de genocídio.

A Bela Adormecida

A linda, mas triste história da princesa Aurora, que fura o dedo e acaba sucumbindo ao sono eterno até que é descoberta e beijada por um príncipe nem sempre teve uma versão liberada para todas as idades. Na versão de Giambattista Basile, Aurora não acorda com um doce beijo, mas sim com o parto dos seus gêmeos. Nesta versão, um rei casado não a beija, mas a estupra e vai embora enquanto ela ainda está adormecida. Quando ela e sua prole chegam ao palácio, a esposa dele tenta assassiná-los, mas ele a impede a tempo, a sentencia à fogueira e, agora viúvo, casa-se com Aurora – o mesmo rei que havia a estuprado no começo da história.

Mulan

Na animação da Disney, Mulan é uma mulher que luta no exército chinês enquanto finge ser um homem, vence a guerra e volta para casa para brincar com suas galinhas. Mas, no poema A Balada de Hua Mulan, baseado na lenda de Hua Mulan e que data do século VI, a China perde a guerra e o khan do exército inimigo vitorioso a permite voltar para casa com uma condição: que ela se case com ele. Mulan consegue fugir, mas, quando chega em casa, descobre que o seu pai está morto e que sua mãe casou com outra pessoa. “Eu sou uma mulher, eu sobrevivi à guerra e eu fiz o suficiente. Agora eu quero ficar com o meu pai”, diz Mulan no poema. Em seguida, ela se mata.

O Corcunda de Notre Dame

Em uma das histórias mais lindas das animações da Disney, O Corcunda de Notre Dame, Quasimodo é um jovem, que nasce corcunda, se apaixona pela cigana Esmeralda e impede que ela seja executada pela igreja. Enquanto isso, na história original, escrita por Victor Hugo, Quasimodo não consegue salvar Esmeralda (na realidade, ele a entrega para as autoridades sem querer) e assiste ao seu enforcamento. Em seguida, ele vai até o túmulo dela e fica por lá até morrer de fome. Anos depois, quando o caixão dela é aberto, alguém encontra os esqueletos dos dois e, ao tentar separá-los, eles se transformam em poeira. Imagina mostrar isso para as crianças?

O Rei Leão

Você sabia que O Rei Leão é uma adaptação solta de Hamlet, uma das peças mais famosas de William Shakespeare? Basta prestar atenção na plot principal de ambas as produções: o irmão invejoso do rei o assassina, mas o filho dele, o herdeiro do reino, acaba descobrindo o seu plano e promete vingança. Na peça, Rosencrantz e Guildenstern (Timão e Pumba na animação) tentam distrair o herdeiro (Simba) da sua promessa, mas, finalmente, o herói mata Claudius (Scar em Rei Leão), o seu maldoso tio. Na versão de Shakespeare, inclusive, todo mundo morre.