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13 Reasons Why | Crítica

Série teen da Netflix aborda temas complexos de forma incisiva e impactante

Por Carla Braga - 05 Abr 2017 às 16:51h

Não há banho demorado ou quente o suficiente que consiga lavar a sensação de sujeira generalizada que uma vítima de assédio sexual e/ou psicológico costuma ter, muitas vezes por anos ou a vida inteira, após passar por uma experiência como esta. 13 Reasons Why, que adapta o best-seller de mesmo nome de Jay Asher e é a nova série da Netflix a se tornar uma sensação rapidamente, revela exatamente isso ao retratar a trágica saga da sua protagonista, uma adolescente chamada Hannah (Katherine Langford), ao longo do ensino médio e as razões para ela ter cometido suicídio.

Não se preocupe. Saber da morte da personagem principal deste seriado não é pegar um spoiler, mas sim conhecer a sua premissa. A trama inicia-se com a chegada de misteriosas fitas cassetes na porta da casa de Clay (Dylan Minnette), o outro protagonista de 13 Reasons Why, após a morte de Hannah. Ele descobre, então, que as gravações foram feitas pela jovem enquanto viva para elencar as treze razões que a levaram até a decisão de tirar a própria vida. A partir disso, cada episódio é dedicado a uma fita gravada por Hannah, que por sua vez dedicou cada uma delas a uma pessoa diferente.

Já no segundo capítulo, aprendemos que a narradora pode não ser confiável, ou seja, talvez não estejamos absorvendo o conteúdo das histórias de forma verídica, o que é uma ruptura de expectativa interessante. O mais intrigante nisso tudo, no entanto, é a perpetuação desse mistério e da dúvida em nossas mentes, que, de repente, ficam ainda mais atentas aos mínimos detalhes dos acontecimentos a fim de captarmos a nossa versão da verdade. A moral que tiramos deste mistério em particular, já na segunda metade dos treze episódios, é extremamente satisfatória, relevante e condizente com o tema central da produção.

A realidade de Hannah é complexa. Muitas vezes, podemos nos pegar frustrados com suas decisões, que parecem não aprender com as anteriores. Quem não estiver imerso na realidade de um ensino médio (ou algo parecido) terá dificuldades, ao longo de vários capítulos, para imergir por completo nos dramas escolares da protagonista, que podem se tornar enfadonhos diversas vezes ao longo de treze episódios - quase todos desnecessariamente de uma hora de duração.

No entanto, a forma como os dilemas da protagonista se entrelaçam de forma crível com histórias reais de assédio sexual e bullying, infelizmente tão corriqueiras em nossa realidade, nos mantém conectados, mesmo um pouco impacientes, e é, sem dúvidas, relevante para uma produção de alcance tão astronômico como uma série teen da Netflix. 13 Reasons Why aborda temas complexos, que muitos adultos julgam erroneamente não serem próprios para menores, ideia que a série veta por completo ao mostrar que eles podem se tornar para adolescentes, já que jovens podem passar por dilemas assim de forma corriqueira; Hannah e tantas outras jovens, que perderam suas vidas prematura e injustamente, inclusas.

Apesar do assédio e bullying serem abordados com frequência em produções hollywoodianas, fazendo-nos acreditar que os ambientes escolares brasileiros (pelo menos, os particulares) conseguem ser bem mais amenos, este seriado aborda essas duas questões de forma absurdamente coerente e madura para uma produção adolescente. Infelizmente, falha ao apresentar uma personagem feminina, que se revolte contra tudo isso e dê voz ao seu sofrimento e ao de tantas jovens na vida real.

Mas e quanto à Hannah? Vivida de forma excelente por Katherine Langford, atriz que mergulhou a fundo na personagem e se transformou na personificação dela, ela é a que mais chega perto de ser um símbolo de luta, mas apenas através da sua morte, ou seja, quando já é tarde demais. Senti falta, portanto, de uma voz que passasse a mensagem de que nós mulheres não devemos nos calar, que devemos sim resistir aos mais variados assédios e não desistir de nossas vidas. Skye (Sosie Bacon) é uma personagem coadjuvante superinteressante que poderia ter sido ainda mais trabalhada para ter sido esse símbolo de luta. Quem sabe em uma possível segunda temporada!

O elenco principal possui outros destaques, como o próprio Clay, interpretado pelo competente Dylan Minnette, que poderia ter se tornado, facilmente, irritante com o seu jeito travadão de ser e lentidão imensurável para terminar de ouvir as fitas; o carismático Christian Navarro como Tony, amigo de Clay e Hannah que desempenha um papel crucial para a história; Kate Walsh incrível no difícil papel da mãe da protagonista; e Miles Heizer como o complexo Alex.

13 Reasons Why é um drama pesado, mas necessário para adolescentes e adultos, repleto de atores das mais variadas etnias e problemáticas relacionáveis, mas ainda pouco debatidas no dia-a-dia dos jovens. Mas esteja ciente de que, apesar de existirem vários mistérios fortes o suficiente na trama auxiliados por uma direção pontualmente criativa e uma fotografia interessante para desencadear um binge watching feroz, isso não será algo fácil de se fazer -  ainda mais com episódios tão longos. Mas, ei, quem disse que assistir a uma série precisa ser necessariamente agradável? Ás vezes, a ficção pode ir muito além da mera diversão, como é o caso desta produção. 

8.8

Ótimo

Prós
  • A trilha sonora é ótima, com direito à Selena Gomez na parte mais intensa da trama!
  • Uma fotografia inteligente e funcional, mas sem ser didática, para criar flashbacks
  • Atuações fortes de atores que realmente tomaram seu tempo para entrarem nas peles de seus respectivos personagens
  • O programa escancara como nossa realidade pode ser tóxica para as mulheres
  • A trama central aborda temas que precisam ser mais debatidos entre jovens e adultos
  • A série contém uma rede de pequenas tramas muito bem elaboradas e interligadas
Contras
  • Apesar de escancarar o machismo e assédio em ambientes como escolas, a série não cria uma personagem que funcione de exemplo para a audiência jovem
  • A edição de muitos capítulos, extremamente arrastados e enfadonhos, não contribui para aliviar o drama da história

8.8

Ótimo

Prós
  • A trilha sonora é ótima, com direito à Selena Gomez na parte mais intensa da trama!
  • Uma fotografia inteligente e funcional, mas sem ser didática, para criar flashbacks
  • Atuações fortes de atores que realmente tomaram seu tempo para entrarem nas peles de seus respectivos personagens
  • O programa escancara como nossa realidade pode ser tóxica para as mulheres
  • A trama central aborda temas que precisam ser mais debatidos entre jovens e adultos
  • A série contém uma rede de pequenas tramas muito bem elaboradas e interligadas
Contras
  • Apesar de escancarar o machismo e assédio em ambientes como escolas, a série não cria uma personagem que funcione de exemplo para a audiência jovem
  • A edição de muitos capítulos, extremamente arrastados e enfadonhos, não contribui para aliviar o drama da história
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